Foto de acervo pessoal. Eu no terminal do Ferry Boat na Ilha de Itaparica — Bahia

Tampa de isopor

Calçadas

Enseadas

Improvisos

Como quem aprende a dirigir em carro velho.

Como quem aprende antes do mundo virar um lugar só de treino para eternos campeonatos

Ruas e espaços sem medo

Ausência de telas

Família que vale ter

Lugar pequeno

Tudo grande, tudo perto

Horizonte

Tempo

Muito a inventar

Palavras que parecem perdidas e soltas reafirmam que ainda tudo que se torna grande nasce bem simples, começa improvisado, tem sabor de tudo que é antigo, junto com nome, apelidos, objetos emprestados e reutilizados.

Tudo que é humano é natural, simples.

Tem sabor de afeto, tem carinho, amor e respeito dentro palavra “mainha” no lugar de mãe “apenas”. Mãe é pouco para quem tem uma mainha.

Homem que chora é valente mesmo, corajoso, destemido e pode gostar de avó.

Menina que dança, brinca, mas luta que nem gente grande. Quando não precisa dizer o que esperam, fala sem orientação de publicidade, sem gestos estudados e poses.

Só sabe ser ela, bem menina gente grande. Só sabe ser ele com o coração.

Gostamos de ouvir e ver gente de verdade vivendo, com afeto e casa de verdades. Todo mundo sabe onde essa gente mora, e é em lugar “pequeno”, onde cabe todo mundo.

Tem pai e mãe. Conhece o chão de pés descalços, brinca sem brinquedos.

Aquela simplicidade que podemos chamar de nobreza, que desarruma a formalidade, formalidade que rouba empatia e humanidade, formalidade que parece ser chique. Até porque ser chique é algo que pode até ter disfarce, mas não dura muito quando não se é. Ser chique é coisa que vem de dentro.

Vem dentro de gente, que sabe o que é ser gente.

Quem sabe onde vive, de quem recebe afeto, de quem pode esperar colo, que tem abrigo e futuro. Que quase nunca se sente sozinho. Gente assim, tem chance de medalha.

É gente que sabe que a seriedade tem lugar certo, hora certa, sem relógio e cujo cep não diz muito. Seriedade deve estar onde e quando, ela se fizer necessária.

Aquele olhar que não se espanta com a fama, nem quer ela. Aquele olhar que não entende nada que não tenha valor que possa ser sentido.

Gente assim faz com que nos sintamos, completamente ridículos comprando coisas para parecermos chiques, sérios e “civilizados”.

Gente precisa de gente, antes de virar gente grande.

Aquele mundo do império onde a infância é tempo de treino para descobrir o tal “gift” que paga bolsa, que torna os dias rotina de disciplinas para alcançar metas futuras tem adoecido corpos e mentes.

A vida não pode ser um objetivo de poder, um exercício diário para buscar as faltas e falhas para mostrar-se insuperável. Crianças precisam aprender a brincar, gente precisa de outra vida para ser feliz.

Todo mundo quer uma vida antes e não uma carreira sem vida. Um império que influenciou o mundo com sua cultura, hoje se vê apodrecido em suas escolas, seus jovens adultos cansados antes de serem adultos, deprimidos por terem que ser imbatíveis. Suas máquinas falharam por negarem que existe alma no corpo. Suas armas são usadas contra eles mesmos para matar e negam usar as armas da vida, como a vacina e a máscara. As olímpiadas, este evento universal e secular, revela que as vitórias devem ser outras e especialmente que as batalhas precisam ser outras.

Haviam dito que o mundo seria um lugar só, pequeno e que tudo viraria “um ali na esquina”.

O mundo ficou enorme, casa de ninguém, morada de nenhum e não será universal por valores da cultura estadunidense, como dizem que seria.

Bom mesmo, é quando o mundo era tão longe que só havia o lugar onde havíamos nascido e morávamos. Tinha gente e muita vida, neste lugar pequeno de fazer gente grande e vida larga.

Dava pra ser feliz com uma tampa de isopor nesta infância, neste tempo, neste mundo que era outro.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial