Somos seres nascidos do colo

Quando eu era criança, não sei se é da minha imaginação, mas penso haver conhecido pessoas mais velhas que eram cheias de histórias, palavras certas nas horas certas, comidinhas certas para aquelas horas “erradas”, colos com agasalhos, chás curativos, bolos quentes e frases de sabedoria para reencantar a vida sem pressa, sem medo.

Eu desejava viver a linha do tempo inteirinha e sonhava me tornar uma velhinha bem jovem cheia de vida, comidinhas, palavras e histórias.

Talvez sejam memórias de filmes e ou histórias, mas sei que eram velhinhas adoráveis, sexys e cheias de vida, que faziam a vida ser inteirinha bela. E eram mulheres, não eram homens.

Sim, tive duas avós inspiradoras. Uma bem próxima destas velhinhas assim cheias de sabedorias. Essa (minha avó Olga) que está sentindo a neve no rosto quando de uma viagem para sua terra natal (Gênova- Itália), décadas depois.

As grandes cidades parecem estar tão doentes como lugares que crianças e pessoas mais velhas não têm mais lugar de vida. Desde que cheguei em São Paulo reparei nas pessoas mais velhas que aqui vivem. Me intrigavam as expressões, o corpo muito endurecido, os gestos quase agressivos, as palavras rudes com medo, o amargor com a vida, a falta de laços com a vida, o isolamento que repelia todos e tudo.

Sim, talvez tudo que eles consigam sentir é que viveram para dizer aos jovens que viver não vale à pena, que nenhum ser humano presta, que crianças roubam a vida e a juventude dos pais, que amigos são interesseiros e desleais, que nem um Deus compensa nenhum sofrimento e que não há nada que possa explicar porque sofreram tanto. São pessoas muito infelizes e que a solidão é um lugar de escolha por não conseguirem conviver com mais ninguém. Suas casas tem janelas fechadas, portas trancadas e quando não estão lá, seguem sozinhas observando a rua e o mundo, como um espaço de loucuras, um mundo que não deu certo. Quando precisam de alguém, parecem estar incomodando, roubando tempo e trabalho dos mais jovens.

Talvez se sintam indesejáveis, inúteis para uma sociedade que os olha como consumidores de pensões e remédios. E tantas pessoas seguem reafirmando que envelhecer é uma maldição escondendo seus traços, rugas e repelindo a idade, mal dizendo o amadurecimento para os jovens.

Penso que não é natural vivermos em territórios enormes como as grandes cidades, sem relações íntimas, sem relações extensas, profundas e próximas.

Natural assim da natureza humana e do melhor dela. Não pode ser natural não termos relações de afeto e proteção com vizinhos, com o lugar. Não pode ser natural envelhecer com tanto sofrimento.

Envelhecer deve ser saber viver muito melhor e ensinar aos mais novos a desejarem viver muito.

Quero envelhecer em outro lugar.

As cidades quando se tornam grandes demais não há espaço para crianças, nem lugar para os mais velhos nelas, e por isso as pessoas do “meio” se perdem em disputas e prazeres destrutivos, vivem construindo eternamente um isolamento para sempre.

Acho que prefiro a fofoca ao cancelamento em rede mundial. Prefiro casas com portas abertas, destrancadas, um quintal com latas velhas cheias de plantas, tempo para fazer um bolo e falar do outro. Falar do outro é enxergar o outro, cuidar do outro. Tempo para dançar e mostrar uma música antiga (não velha) maravilhosa. Tempo para mostrar que viver muito tempo é bom e que bom mesmo deve ser conhecer muito bem o corpo de um amor da vida toda, para saber lhe dar com o jeito daquele vizinho chato, mas amigo.

Quero ter tempo para fazer todos os docinhos do aniversário em casa, consertar roupas ao invés de comprar uma nova e lembrar que posso reformar a mesma roupa de uma geração inteira para o mais novo. O capitalismo rompeu laços com tudo, com o planeta, com as crianças, os mais velhos, com o tempo e entre nós.

Somos seres nascidos do colo. E de um colo, ventre feminino.

Nota 1.: Escrevi também sobre isso, num texto do blog chamado “relaxe o bracinho”. Complementar.

Nota 2.: Está aí, o “superministério” nos convocando a morrer antes e retirando dinheiro da educação. Crianças e “idosos” (detesto esse termo) estão atrapalhando o sistema linear do patriarcado capitalista que está acabando com tudo e todos. Deve ser vingança de "filhos homens mal criados"”

Nota 3.: Um governo de morte que veio para desmatar e desumanizar ainda mais esse país tão sofrido.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras dançam. Pensa e sente demais.

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