Começo com Poema de Viviane Mosé.

Desato
“É preciso fritar o arroz bastante antes de jogar água fervendo.
E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.
O alho deve fritar no óleo junto com o arroz.

Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas.
Faxina por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo
Que não sobra um canto que não tenha sido tocado
Por minhas mãos.
Depois vou sujando. Com muito gosto.
Deixo peças na sala e louças sujas na pia.
Não na mesma hora, mas um pouco
Bastante depois volto limpando.
Assim me faço.
Nos objetos que me acompanham.

Gosto de andar nas ruas e comprar coisas
Que vão se arrumando em torno de mim.
Tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas.
Uma camada de livros, outra de sapatos.
Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto.
Tenho camadas de cosméticos e de adereços.
Uma camada de nomes e de coisas que vejo.
Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo.
Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta.

Cadeiras são meus ossos. Sapatos são meus braços.
Torneiras em meus poros. Paredes como roupas de inverno.
(Quando toca música em minha casa sai do umbigo)

Descanso recostada nas paredes da casa
Que me guardam como um abraço.
Me abraço quando me derramo na sala.
E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.

Tudo em minha casa tem existência.
Todas as coisas significo.
Com os olhos. Ou com as mãos.
Minha casa tem silêncios
Que as vezes ouço. Em meu corpo
Tem silêncios maiores ainda.
Que às vezes ouço. E faço poemas.
Faço poemas dos silêncios que ouço”

Em tempos de muita casa, muito pensar e repensar, vale ressignificar tudo que temos e fazemos.

Sempre gostei de cuidar e de dar sentido a tudo que faço, aos cantos da casa, aos cantos cantados, aos espaços que vivo, onde vou estar e passar, aos objetos e seus destinos. Adoro esse poema da Viviane Mosé que ficava escrito na lousa da minha cozinha, para me lembrar da coisificação da vida e me chamar de volta.

Ele ficava escrito na cozinha por ter espaço ali, para me lembrar da potência de sentir, de sentir pela boca, de buscar aromas, trilhas sonoras para tocar e fazer.

A gente não deveria trocar receita de avó pela do chef.

Eu tenho um livro de receitas, que a imensa maioria delas, tem nome e autoria.

Feijoada da Ellen, Mingau de Vinho da minha Vó Olga, Bolo de Iogurte da Sandra, Bolo de Cenoura de Assunta, Pão de Ló da D. Joana e por aí vai.

A capa eu mesma fiz, inspirada num livro chamado O Livro das Fadas de Betty Bib, da minha filha mais nova, Nina. Um livro encantador sobre como descobrir fadas em casa. Elas vivem no jardim, se houver joaninhas nele, em açucareiros de louça perto de xícaras, em caixas de costuras, em caixas com cartinhas escritas à mão enroladas em fios de lã com laços. Parece infantil, mas não é, sendo. É muito poético.

Fiz alguns exemplares manuais deste caderno de receitas, um para cada filha, um para cada sobrinho e sobrinha anotarem as receitas de família, para aprenderem a cozinhar, para lembrar que casa é lugar de afeto e não apenas de exposição de arquitetos, mas também não é lugar apenas para dormir, nem de acumulações e descuidos.

É lugar de muito sentido e da equidade de cuidados, sem gêneros.

Tem que ter amor por ela.

Recorro as receitas com afeto, lembrança e elas trazem muitos sentimentos e outras lembranças, quase como um álbum de fotografias. Eu desejo comida com memória.

Neste mundo de conhecimentos e cursos que desejam ganhar certezas de expertises seguimos substituindo saberes constantemente e vale lembrar que a educação é essencialmente um espaço de heranças, de trocas e que devemos juntar saber com histórias afetivas. A casa é um território como a cidade, o país, e todos se juntam e nos trazem identidade e pertencimento. Se cuidar da casa bem, você será um cidadão e um ser humano muito melhor.

Porque só nos sentimos vivos quando estamos sentindo que estamos vivos, onde estamos e naquele momento. Senão tudo é qualquer coisa para ser usado e descartado. Aproveite o tempo para desatar nós e criar laços de existência.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras dançam. Pensa e sente demais.

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