Série Aedos. Texto 9. Todos os outros são Deus.

Do Instagram da @tatibernardi

Nessa frase de Tati Bernardi cabe tanta coisa desta sociedade machista, da sociedade do espetáculo, da sociedade do cansaço, da sociedade da publicidade onde não basta pôr os ovos, mas é preciso cacarejar muito.

Muitas camadas deste tempo adoecido, que adoece corpos e mentes e cuja classe artística é parte que apresenta e vende tudo isso na soma da imagem de cada um e tantas vezes nas próprias obras.

Quem diria que não estamos na Idade Média e o pensamento deste tempo não é de sacrifício para a vida eterna? O que ficará para a vida eterna? A quantidade "virtual-surreal" de "conteúdos" que por questão de horas já será esquecida? O altar de pedra, a vida reclusa num mosteiro, a bandeja, as telas são apenas diferentes formas de serviço à este Deus "neonovinho da era da liberdade e pós verdade" que me parece, ainda muito mais cruel que aquele Deus da Inquisição.

E aquela arte que vinha amadurecendo, que parecia esboçar crítica ou que paradoxalmente denunciava que é preciso ter crítica sempre perdeu-se na bandeja, no sacrifício da exposição nas redes de que tudo é válido para fazer com que os "outros" se entretenham diuturnamente. É preciso produzir para tudo, todos os meios, Instagram, Facebook, TikTok, podcast, YouTube, Twitter, ClubHouse e uma infinidade que parece infinita. Não importa o que você realmente faça ou crie, mas precisa produzir o carcarejar dos ovos em tudo isso aí, diariamente, se possível, três ou mais vezes ao dia. Dizem que no Twitter é preciso postar no mínimo 6 vezes por dia. Insano.

Artistas não tem mais escolha ou se colocam na bandeja e mostram como vivem e com quem vivem, que são interessantes, leves, profundos, que se posicionam, ou não tem mais espaço para sobreviverem como artistas. E tudo isso aí tem que ser muito divertido, entreter e gerar engajamento. Um dos sinônimos de engajamento é pacto. Portanto, há um outro pacto com esse Deus ou deuses ou com o próprio diabo, não mais satisfeito com uma oferta por ano, num ritual calendarizado, mas é em tempo integral e onde quer que você esteja, ele exigirá uma dose bem grande de sacríficio entregue em várias bandejas.

Hoje, eu só quero viver sem precisar de nenhuma bandeja.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras dançam. Pensa e sente demais.

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