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Série Aedos. Texto 5. O romantismo da dor feminina no mundo artístico.

Existe machismo, patriarcado, racismo na música, no mundo artístico? Claro que sim, e muito. Em certa medida, o meio artístico é muito mais aberto à liberdade, menos formal, mais profundo de reflexões e o próprio consumo de cultura provoca ganhos de humanidade e de menos censura de ideias, contudo estes preconceitos são estruturas de nossa sociedade e permeiam todas as relações e meios profissionais. Há inclusive um tipo de abuso de poder, muito ligado ao acesso e algum acúmulo de conhecimento, uma certa arrogância intelectual da classe média “alta”, que foi à Paris, que conhece museus e livros de arte, que é usada como uma forma de tornar o talento, algo ainda mais especial. Portanto, temos representações de todas as mazelas sociais no mundo da arte.

Se voltarmos nosso olhar para história, veremos que biografias denunciam o social e que muitas vezes, as histórias são apenas percebidas como algo místico, um destino, uma individualidade que superou desafios. Eu sempre noto o contrário, ainda que cada um seja um ou uma.

Um certo gosto pela observação mórbida da dor do outro nos atrai, mas o fato é que inúmeras mulheres artistas denunciam e denunciaram violências físicas, emocionais, patrimoniais, psicológicas, assim como, o mundo gay, diretamente violentado pela extensão da misoginia, do nojo ao feminino. São muitas marcas do patriarcado, do machismo que provocaram desequilíbrios profundos, processos de autodestruição e desmonte de muitas carreiras e muitos suicídios.

E a dor sempre foi algo que o show business, o mundo artístico, depois do mercado, acredita que possa servir muito à criatividade e ao seu ego. A ideia de que o sofrimento enobrece a arte, me faz, fazer perguntas. Diferente do lugar de aceitar que ele existe e é fragmento do mistério.

O poder esconde dores causadas por ele mesmo, mas existem outras vindas destas estruturas preconceituosas e desumanas. Artistas são vulneráveis, mesmo as mais poderosas. Somos todos e todas, inclusive pela maestria em que muitos destes abusos, se disfarçam no meio artístico. Sim, são disfarçados e por isso, talvez, mais difíceis de serem combatidos, entendidos, identificados. O machismo tem traços de amor impossível, de uma grande história, de pedidos de perdão teatrais, tem palavras belas, flores, tem inúmeras canções que tentam explicar pelo machismo e nos confundir sobre como os homens conseguem “sempre justificar” que toda violência foi por amor. Arte é denúncia, política, crítica, mas seu lugar de ofício precisa aprender com a própria arte a humanizar-se por ela, para si mesma.

Se tiverem oportunidade assistam ao documentário da artista Yayoi Kusama — Kusama Infinity em algum lugar disponível. Me impactou muito, quando assisti há alguns anos atrás.

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