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Série Aedos. Texto 4. Quanto se perderá pela "música"?

Escrevi esse texto em 2007 para a coluna Guia da Semana. Penso que os últimos 21 anos foram determinantes para criação de um cenário de guerra psicológica e desumana que nos trouxe até aqui. Penso que 14 anos depois, o “sistema” ainda procura e cria monstros para as suas indústrias. A falácia do significado de sorte, a força do carisma numa sociedade que pensa por simpatia e é ludibriada por ela, a falta de educação musical, a falta de escrúpulos do poder para ganhar o mundo. Segue abaixo.

"Em 26 de janeiro do ano de 2007, foi capa da Ilustrada o caderno de cultura do jornal A Folha de São Paulo, o libanês de 23 anos, o Mika.

A matéria noticiava o seu grande e crescente sucesso, informava que ele é a “principal aposta da gravadora Universal para 2007” e ainda, que “ele está prestes a tomar conta do mundo pop.” Na continuidade da matéria, destacavam-se opiniões de influentes e/ou poderosas figuras do show business sobre o artista. Uma frase me chamou atenção: “…Ele é insolente, arrogante, bonito, escreve canções pop perfeitas, com letras bobas e grandes refrões. Gostaria que existisse mais gente como ele.” Esta frase, entre outras em destaque é de Paul Watts, editor da “Q”. Eu nem conhecia Mika e sequer tenho idéia de quem seja Paul Watts. Perdoem-me os informadíssimos, mas fiquei a pensar sobre o que tinha lido.

Toda vez que vejo uma matéria como esta sobre um novo artista de sucesso, leio nas entrelinhas que existe um enorme investimento financeiro em sua carreira. Não discuto nem o talento, nem o carisma, tão pouco o merecimento e a qualidade da música, mas penso,quem é que afinal de contas consegue “convencer” todo o resto de que este é o “cara”?

A matéria cita que ele fora rejeitado inúmeras vezes por gravadoras e ouviu de um (atual) jurado do “American Idol” (que proferiu profeticamente), que ele tinha uma boa voz, mas que desistisse de procurar uma gravadora. Quem em algum momento da história dele (Mika) foi capaz de acreditar e fez a diferença? Exceto ele, quem e com qual poder? Porque fica claro para mim, mais uma vez que todo grande sucesso é feito por muitos, muitos que podem fazer acontecer, mas que o artista parece ainda depender de um momento mágico.

Há uma citação do próprio Mika revelando que queria ser uma dessas pessoas que cria um mundo de ilusão. Ilusão ou certeza?

Uma das certezas que tenho é que jamais suportaria que falassem assim de mim, mesmo que isso signifique para muitos na atualidade uma descrição de capacidade, de sucesso. Talvez nem ele próprio suporte ou sequer dê importância. E fico com mais uma pergunta, o que é que importa mesmo? Até porque não estamos discutindo um universo particular de felicidade, comum nas campanhas de marketing deste século.

Uma certa vez ouvi de um músico amador, destes que dizem que tocam por prazer nas horas vagas, por opção, pois só como arquiteto conseguia pagar suas contas do mês, e por acreditar que na música seria muito difícil fazer sucesso: “na música você precisa ter muita sorte. Sorte para estar no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas te ouvindo”. É verdade. Se sorte pode ser explicada como oportunidade e preparo, para a maioria falta esta oportunidade, o tal momento mágico que precede os outros: o do artista diante de alguém com poder e que acredite em você como “a principal aposta”. É realmente preciso talento e muita sorte."

E pergunto, quanto se perde para se ganhar a fama?

Ainda penso, no quanto é necessário tornar o que há de artístico numa monstruosidade, em estereotipar os artistas como “esquisitos”, em torna-los arrogantes e sem possibilidade de criarem espaços pessoais humanizados para serem vistos como seres especiais e poderosos. A fama destrói muito da vida pessoal, de todos que a experimentam. Dizem que a espécie humana precisa de mitos, enquanto não superarmos essa ideia, quem quiser ganhar o mundo como artista da música pop, ainda estará submetido ao poder de quem tem o poder, que chamam de sorte e a perder o contato com as coisas mais simples e belas da vida. A não ser que seja bastante consciente da separação da sua personagem e da sua vida pessoal, blindando-a da exposição. Caso contrário, precisará experimentar a maior solidão que há, nessa imensa multidão sem rostos que amam seus ídolos.

Os que desejarem viver isso, devem se preparar para serem seres esquisitos. Que a música que seja feita por esses, seja ao menos mais duradoura, que a efemeridade das listas de enormes sucessos esquecíveis dos últimos 21 anos.

Se é mesmo que vale “desumanizar-se” por ela.

Nota: Link da matéria da Folha em https://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u67881.shtml

Semana que vem aqui no blog, será lugar de falar do feminino, sobre ser a mulher no mundo da música.

cantora. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras dançam. Autora do Livro Eu e Meu lugar - coleção Eu vim da Bahia pela editora Caramurê

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