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Série Aedos. Texto 11. Nos Bastidores de uma inspiração.

Dentro desta série e na sequência de ter escrito sobre o making of resolvi compartilhar um momento meu antes da realização.

Desde o começo da pandemia estamos suspensos entre o antes e o que seremos depois. Muita gente seguiu rapidamente a onda, quase sempre somos levados a seguir ondas. Eu confesso que não consigo seguir ondas e faz tempo. Cheguei à conclusão, tomando para mim como minha a frase de Manoel de Barros — "Tudo que não invento é falso".

Em 2020 fiz uma série de conversas abertas com escolhas que acreditei serem válidas pelo Instagram e duas curtas apresentações de música todas chamadas de lives. Também como sabem recuso o uso indiscriminado de termos em inglês por achar nossa língua especialmente bela e pela crítica ao imperialismo contemporâneo.

Bom, neste 2021 apesar da certeza de que ele não estaria aberto ao novo normal fiquei mais "paralisada" que antes. Já estava especialmente muito difícil produzir para a música antes da pandemia, por tudo que ela se tornou e perdeu nas mudanças. Entro nesses detalhes no tempo propício, noutro momento, mas me sinto com desejos quando invento e quando o que invento oferece sentido. Um sentido que seja maior do que aparecer para se manter ou aumentar seguidores.

Nestes últimos dias fluiu, chegou. Chegou uma ideia desarrumada. Uma música que não conhecia mas já existia. Depois outra se juntou e na sequência outras ideias soltas que vieram de lives que assisti. E elas se juntaram com um sentido muito especial para mim e creio que possa fazer para o público.

Sim, não são apenas canções. Eu preciso juntar canções e ideias para elas se juntarem.

Como particularmente acho que o mundo está entupido de informações e conteúdos e que eles assim sozinhos ou separados parecem não estarem fazendo sentido para uma imensa maioria, aí sempre penso que devo "juntar" de outro jeito, para ver se levo as ligações que faço. Grandes artistas não gostam de legendas, não se trata delas contudo havemos de convir que "pistas" são como lanternas. Elas não te fazem andar por si só, mas podem guiar. Arte nem sempre pode ou deve representar a confusão ou o caos. Vejo muitos arremeços de ideias inacabadas, confusas que se autointitulam sofisticadas pois nem os próprios artistas sabem explicar e vira um ciclo de enaltecimento à complexidade humana e não mais de simbologia da arte. Temo inquietudes lançadas por catarse e ego. Gosto de provocações que dão pistas. Enfim, a intelectualidade se enrola nela mesmo e faz uso de si mesma como desculpa para nada explicar, falando muito complicado.

Eu tive uma ideia que me levou para o violão para cantar uma música. Veio um "tema". Depois escrevi o nome de 7 canções. Depois encontrei palavras, um livro e escolhi trabalhar nessas ideias juntas, misturadas. Não estou preocupada se a cantoria vai dar uma hora de apresentação e que não vai ser aquela produção. A ideia me anima por ela. Não sei se parece com outra ideia, se o mercado entenderá, se fará sentido. Eu gosto de pensar que construí algo que acredito que tenha valor para ser oferecido "agora". Não tem nada a ver com calendário comercial, dia das mães ou qualquer outra data inventada para consumo. É assim sobre nós ou alguns de nós. Sobre pandemia. Sobre a crise deste modelo ocidental capitalista, sobre esse Brasil de Bolsonaro e os Brasis que ele não ama, sobre o que deu errado e sobre luz.

É sobre sonhos pela voz de Sidarta Ribeiro. Pelo nada de Manoel de Barros. Pela luz de Krenak, sobre o amanhã.

Sou eu pensando sobre o que vivemos e ainda estamos vivendo.

Em maio, espero realizar assim, com jeito de quem não está no mainstream, sem jeito de show ou making of, sem tirar onda e seguindo a minha própria.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras dançam. Pensa e sente demais.

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