Série Aedos. Texto 10. Imaginação com inspiração.

Esta série é bem direcionada ao mundo artístico, mas cabe tanto ao público, quanto aos que desejam ingressar ou já estão no caminho.

Eu entendo que o tal do "making of" sempre atraiu olhares e curiosidades, ainda mais no formato que tomou da e na indústria de entretenimento, contudo e sem desejar ser arrogante, acho que o que compartilho aqui, tem um valor de aprendizado muito especial. Não venho criar narrativas de mitificação, e sim, desmitificar para um novo reencantamento.

O making of é muitas vezes, mais do mesmo e isso aqui que busco e desejo compartilhar é antes do making of, talvez antes do estudo, do processo de criação. É o talento, o desejo de ser ali com a pessoa, com suas sombras e seus encontros com o que oferece intuição.

Esqueçam por alguns minutos o making of. Esse momento aqui não pode ser gravado, não está programado ser filmado o que não tem hora para acontecer. Aquele momento que parece anteceder a primeira pincelada numa tela, ou a mão formar um acorde num instrumento, ou as palavras começarem a se juntar numa letra de música ou para formar uma poesia. Pensem num artista buscando inspiração ou simplesmente estando no centro da sua vida, vivendo-a e de repente chega uma inspiração, uma ligação de fios. O making of é sempre "em off", com câmeras desligadas, poses esquecidas, figurinos não combinados.

A inspiração chega quando estamos em off das câmeras do mundo à nossa volta. Ela exige suspensão de passado e futuro, ela é a máxima certeza do presente e de estarmos nele, só nele, "só ali", parece existir apenas para você. Uma ideia parece vir como uma descarga de adrenalina, uma onipresença da vida, onde tudo faz sentido naquele instante e dentro de sua imaginação que percorre mundos, gavetas, palavras e imagens para voar e juntar pedaços que antes não faziam sentido estarem juntos . Esse instante que se junta a outros instantes, assim num instante de segundo, juntando. A inspiração que produz para alem do tempo dela, aparenta gostar muito do que traz a vida de volta ao lugar dela, de contemplação, da vida que não foge à realidade, mas que nela encontra beleza.

Mas como será que a inspiração pode gostar tanto da realidade? Acho que ela gosta de intimidade, de privacidade para encontrar com a imaginação de outra pessoa real. Acho que a inspiração gosta de imaginar antes de mostrar. E imaginar é sentir antes de sentir, de ver, de tocar, de provar, de gravar. Imaginar não é idealizar, é outra coisa, é achar quase uma solução, ou uma beleza não vista antes, é quase uma chave para um baú com tesouros que não podem ser contados.

Num tempo tão saturado de imagens, de tanto making of, que não nos permite desligar de nada, parece que estamos vivendo a época da fartura da imaginação e contraditoriamente neste tempo sem tempo algum, ela não tem espaço sequer para imaginar. Estamos produzindo muito para jogar fora.

Imaginação gosta de vazio, de algum silêncio, de olhar para o horizonte e de viver no tempo presente da realidade. Ela dá risada de making of com um f só, que quer dizer a expressão "realização de", que é especialmente entendida como algo que acontece nos bastidores. Os bastidores tem seu encanto, assim como o fazer e o apresentar tem outros, mas o imaginar é antes deles.

O imaginar é antes. É a imaginação com outra imaginação, imaginando.

Encontre um lugar, um silêncio, um horizonte, uma melodia, uma fotografia, palavras para a sua se inspirar.

"As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora"

– Fragmento do poema de Manoel de Barros — Do Livro sobre o Nada

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras dançam. Pensa e sente demais.

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