Refazendo

Começando outro ano.

Tive um natal e um réveillon em família, em minha casa. Nada muito maior que havia sido em 2020. Com uma diferença, foi mais leve. Especialmente porque estamos com menos medo e a ciência conseguiu diminuir os danos da covid-19 com a vacina, mas antes da pandemia já estava em curso uma mudança pessoal “pequenina” e outra maior do próprio tempo.

Os rituais de Natal que eram repetidos, sem qualquer discussão ficaram vazios de sentido e confesso que não senti falta deles, ainda que as lembranças sejam quase todas muita boas. Tudo muda e para continuar vivo não pode se manter intacto.

Nos últimos anos, segui os rituais da família do meu marido, sim. Estou em São Paulo, onde ele tem família e amigos, meio como na expressão "em Roma faça como os romanos". No Natal deles, e que não tenho como e nem quero mudar, tem Papai Noel entregando presentes, reza certa e católica, antes da ceia, e a ceia bem parecida com a mesa do dia de ação de graças estadunidense. Sim, peru e reza na mesa vêm daí e de lá.

O da minha família não era assim, não. E até hoje não tem Papai Noel, não tem ceia na véspera.

Quando pequenos na véspera do Natal, meus pais almoçavam com minha avó portuguesa e íamos todos a missa do Galo na Casa D’Itália em Salvador à meia noite e voltávamos para dormir. No dia 25 de dezembro, sim era e ainda é a nossa tradição de encontro com presentes simples entregues sem pedidos e um almoço com pratos que eram especiais e representavam a nossa ancestralidade, o bacalhau português e o raviolli feito por meus avós italianos e cada núcleo trazia um prato. Nada de perus e rezas antes do almoço. Era meio descombinado, diverso e até meio engraçado pois a ordem era meio aleatória.

Foram dias maravilhosos, família grande, quintal e brincadeiras entre primos e primas, tios e tias incluindo os menos vistos durante o ano. E tínhamos uma foto no final com todos.

Dava para sentir pertencimento e mudança.

Por anos, foi assim, mas também este encontro nosso já estava mudando e antes. Parentes que se foram, novos que chegam, mudança de casas, novas gerações morando em outros lugares e países, e até mudança de Deus a louvar tornou mais difícil reunir todos.

Não cabe mais tentar repetir o que não pode ser repetido.

Basta apenas sentir o que faz sentido manter e o porque do repetir e aceitar o que precisa ser mudado.

Misture um pouco de memória e um pouco de cada ano que nos muda.

Para o réveillon, em 2020, fizemos em casa um pequenino ritual que tentei repetir em na passagem de 2021 para 2022. Antes da famosa badalada do tempo à meia noite, escrevemos em pequenos pedaços de papel o que desejamos que deixe de existir e queimamos numa vela, cada um o seu pedido.

No dia 1º de janeiro, idealizei plantarmos uma árvore juntos e do mesmo modo, só que ao contrário, escreveríamos em pequeninos papéis, o que desejamos que frutifique e enterraríamos junto às raízes da planta escolhida. Em 2020, plantamos uma muda de abacateiro nascida da nossa compostagem com nossos desejos e os dois rituais se deram facilmente.

Nesta virada para 2022, havíamos planejado o mesmo e plantaríamos uma laranjeira no dia 1º de janeiro, contudo ainda era lua minguante e resolvi esperar para o dia 02 de janeiro para fazer o pequeno ritual, pois já seria lua nova.

Daí, ninguém mais já estava no clima de ritual algum e tivemos visitas em casa muito bem-vindas.

Vou tentar fazer nesta quarta-feira, dia 05 de janeiro, pois ainda é lua nova e começo de um ano novo.

Entendi que os rituais destas datas não podem ser iguais, e se forem trarão mais melancolia que alegria.

Não acho que deva mudar a ponto de se descaracterizar, penso que as mudanças são singelas, às vezes muito pequeninas e quase sempre precisarão mudar para acolher o acaso do dia, aquilo que não controlamos, e o que somos naquele tempo.

Como a canção de Caymmi que diz “se fizer bom tempo amanhã, eu vou…, mas se por exemplo chover, não vou”. É simples e muito delicado. Se eu forçasse “o clima” para que todos se envolvessem e cumpríssemos o ritual de plantação ou mesmo antes da lua nova (não é bom plantar em lua minguante) o que eu estaria atendendo? Talvez e somente a minha idealização, talvez ao meu ego, talvez ao meu desejo de poder.

Nada se ensina assim. Nada cresce com vida tentando controlar o incontrolável. Nada se aprende sem amor. Vira raiva, repressão. Amor é flexível.

Se é para ter significado precisa estar alinhado com o dia, com a alma das pessoas, com o que elas viveram ou estão sentindo naquele dia e como cada um se sentirá para se sentir pertencendo. Talvez valha à pena pensar em como produzir o envolvimento. Estou refazendo os caminhos para envolver uma nova família com novos sentidos para antigas datas.

Precisamos aceitar de que não controlamos o tempo (e que não se entenda como um direito a irresponsabilidade das ações dos homens sobre as mudanças climáticas, isso seria uma apropriação tal qual foi o darwinismo social).

Se rituais não precisassem de mudanças, a humanidade ainda estaria fazendo sacrifícios com vidas humanas e deixando corpos em templos de pedras para oferecer aos deuses.

As tradições devem existir para nos trazerem pertencimento. Quando elas passam a significar endurecimento, falta de liberdade e autoritarismo, elas perdem sentido e razão, não unem mais nada, nem ninguém.

Criar memórias é importantíssimo. Tê-las é fundamental, especialmente para honrar a ancestralidade e os aprendizados deixados por ela e repassá-los a nossa descendência que dará seguimento nos trazendo outros ensinamentos. Aliás, o amor ensina tudo quando se abre e não quando se fecha.

São encontros para agradecer e sentir o mistério que na vida existe.

Ritual tem que unir.

Na sabedoria da simplicidade, Caymmi me diz que se fizer bom tempo, eu plantarei minha Laranjeira, amanhã.

Nosso abacateiro segue nos ensinando a aguardar

“… Aguardaremos
Brincaremos no regato
Até que nos tragam frutos

Teu amor, teu coração
Abacateiro
Teu recolhimento é justamente
O significado
Da palavra temporão
Enquanto o tempo
Não trouxer teu abacate
…”

Farei meus planos para este ano, para que eu possa sentir melhor o quê pode ser feito para envolver e conservar “apenas” o que nos une.

Tudo deve permanecer até precisar mudar. Refazenda em 2022.

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canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

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Vania Abreu Oficial

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canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

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