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Eu me assusto com alguns avanços tecnológicos. Com alguns mais do que com outros. Tenho medo de que a vida se torne outra coisa, ainda mais desconectada da nossa natureza de tocar e sentir as coisas, da perda do fornecer sentido ao fazer, da possibilidade que a tecnologia tem sugerido oferecer e que rouba "o viver do tempo", em duração e da continuidade da ação verbal em gerúndio simples, viver sentindo o que está sendo feito.

Ontem assisti à uma reportagem no programa Fantástico, sobre a reprodução da voz em computador. Sobre o feito em si, acho notável, mas a quem e ao quê servirá um software que pode tornar da captação de mínimos 04 sons da voz humana? Qual o obejtivo de produzir uma canção inteira gravada por quem não "pode cantar" ? Há muitas outras possibilidades no software e a reportagem é obviamente limitada, mas no pouco apresentado, me sobraram muitas perguntas.

Acho assustador algo que deve vir da alma, não a tê-la, nem vir dela diretamente. Sequer consigo entender o objetivo, de inventar algo para substituir, o que nem deseja ser substituído. Por que precisamos inventar algo que é em si mesmo um prazer? Por que precisamos inventar algo que não é enfadonho, nem põe em risco nossa vida, como é cantar? Se facilitar e proteger vidas são umas das justificativas da tecnologia avançar, a quem serviria e servirá uma máquina como esta?

Penso primeiro, no desejo do criador, de superação pessoal como uma motivação. Talvez só isso, sem desejar reduzir feitos e outras conquistas. E não consigo "julgar" mais por questões culturais mais profundas. Sei que boa parte do "mundo oriental mais ocidental" é afeito por karaokês e que a música do ocidente tem escalas e características, bem diferentes do nosso, alicercado em bases eruditas da música clássica e profunda influência da música africana. Nos constituímos em camadas e trocas culturais intensas e muitas resultantes de violência e dor, mas o fato é que sempre produzimos música "handmade".

É verdade que já há algumas décadas, a musicalidade está sendo transferida para computadores e seus softwares que "imitam sons" de instrumentos que antes só poderiam ser tocados. Algumas coisas posso dizer são bem boas, contudo ainda acho que tudo que perdura e sobrevive mais tempo, tem alma insubstituível de gente que fez. A grande maioria é fastmusic.

Para mim, me parece com aquele comprimido que iria para substituir a comida. Como diziam ser a comida dos astronautas, talvez do futuro. Um pouquinho de água e voilá, vira um super prato com aroma e tudo. Tem aroma, sabor e pode até ter nutrientes mas jamais será comida de verdade, feita de verdade por gente de verdade.

O mundo aponta como caminho um futuro mais natural, para a comida orgânica, feita em casa, para bicicletas como meios de transporte, para consumos e produtos mais próximos do século XIX, do que deste futuro biônico, poluente, excludente e vazio. Entre encontros e culturas diferentes, resta-me dizer que nossa diferença deve somar para este futuro.

Se tem movimento para comida de verdade, quero dizer que acho justíssimo que eu possa bradar por música feita, tocada e cantada de verdade. Com todos os aromas, nutrientes, vitaminas, proteínas e sabores, incluindo uma pitada de sal, bem humana e imperfeita. Assim, cheias de harmônicos invisíveis.

cantora. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras dançam. Autora do Livro Eu e Meu lugar - coleção Eu vim da Bahia pela editora Caramurê

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