Precisamos invocar o Sagrado.

O caso Lázaro.

Na velocidade que tudo tem hoje, toda a repercussão e morte de Lázaro Barbosa já é coisa do passado. Somos uma sociedade que cria compulsivamente para esquecer.

A vida nunca foi tão efemeramente banal, desprezível, somos objetos. Parece que por haver tanta gente no mundo, a perda de “alguns”, individualmente ou coletivamente não parece pesar no sentir. Nos dirão os positivos tóxicos, tudo passa. Vale para Lázaro e números de pandemia.

Disseram-nos que ninguém é insubstituível e ressignificamos para "todos" podem morrer com desprezível desimportância.

Que confusão que fizeram com a responsabilidade de estar vivo.

Agora, imagine como é difícil pensarmos na vida de Lázaro Barbosa, ela não vale nada mesmo. Um assassino frio, com longa ficha de crimes é visto como uma pessoa a ser cancelada mesmo. Comemorada pelo nosso ignóbil presidente como um CPF cancelado. Chamo atenção para este importante número na atualidade. Valemos muito pelo CPF.

Dentre muitas coisas que podem ser ditas e refletidas, me chamam a atenção algumas.

Em primeiro lugar, que o crime organizado ou não segue dando um baile na nossa polícia desorganizada e despreparada. E o crime é tão organizado que está disfarçado em escritórios, sites, estruturas, consultórios médicos, empresas possivelmente em instituições da república e um submundo em nossas urbanas cidades caóticas.

Difícil saber como encontrar um fio nesse emaranhado que vivemos e que precisaremos ter muita coragem para desmontar.

Agora, um mateiro, que não fala inglês, que não deve sequer ter assistido à séries policiais, dar um baile de 20 dias, em 270 homens, 3 helicópteros, drones e afrontar assim a masculinidade e poder de tantos homens, já é demais! Tornou-se humilhação.

A raiva das forças policiais sequer nasceu pelos crimes cometidos, pelas vidas que ele tirou, afinal de contas nem soubemos direito seus nomes e suas histórias e empatia não é o forte das forças. Aliás, nada disso foi dito ou fora mostrado nas frequentes coberturas e reportagens. Não é dada a importância ao que perdemos, mas a quem nos afronta e especialmente quem afronta a masculinidade.

Só faltaram lamentar que nossas estradas não tivessem nomes com números, postos de combustíveis com jukebox e que a caçada não tivesse assim ganhado velocidades em fugas e manobras espetaculares. Tudo era tão precário que dava um tom certo de submundo colonizado pelos filmes estadunidenses. E parecem que desejavam mais espetáculo.

Arrisco dizer que Lázaro deve ter visto algum filme de Rambo, assim como os policiais. E imagino como o espirito de caça e de “bacurau” contagia a masculinidade com esses desejos de força e superação totalmente bárbaros.

Os nomes das cidades, o local onde montavam seu QG, a forma com que pareciam ocupar o espaço, tudo era espacialmente caótico e distante da tal civilização organizada e disciplinada, cuja polícia e poder deveriam ser os primeiros a representarem tal modelo. Inclua nisso, a “muvuca” para dar coletivas, pois sempre é uma muvuca, um pequeno “bloco de carnaval” se forma ali e vemos os microfones buscando espaço para gravar as falas. Reparem que sempre há pessoas atrás do “entrevistado” que nunca sabemos porque estão lá e estão tão próximas, caladas e esquisitas. O modelo de organização desta civilização brasileira é o mesmo dos ambulantes. Temos sempre uma rua 25 de março, em qualquer espaço da república, exibido ou não pela tv. Impressiona seguidamente como não sabemos dar respeito e em estar espacialmente em qualquer espaço público.

Nota: Observem estruturas de organização para a inauguração de obras públicas ou quaisquer outro evento público, as cadeiras de plástico, o público se ajeita em disputa, tal qual jornalistas.

Seguimos acompanhando as notícias, que sempre repetiam que a área era muito grande, cheia de matas e que Lázaro as conhecia muito bem.

Pensava, — poxa só ele conhecia muito bem essa área? Não existe, nem existia mais ninguém que conhecesse aquela área? Achei impressionante. Incluindo a área de extensão que diziam que Lázaro conhecia tão bem. Um verdadeiro ninja ou Rambo.

Ri muito dos memes trocados em redes sociais e pensava no quanto, aqueles 270 homens deveriam se sentir humilhados por não conseguirem achar Lázaro “rapidamente”. Dia após dia, imaginava como eles se organizavam, quem obedeciam, e quem poderia coordenar tal tarefa com tantos machos alfa com sangue nos olhos e perdidos na mata (simbolicamente).

E obviamente, previa sem haver nisso muita perspicácia minha, que ele seria morto violentamente. Estava no ódio, estava na meta antes de entrar para a policia ou exército que iria me dar este direito de matar um “bicho homem”. Caçar e matar assim, sem qualquer inteligência racional.

Poderia dizer que a caçada a Lázaro era tudo que eles esperavam viver um dia. A emoção de ter uma missão dessas.

Com todo respeito a muitos homens que tenho absoluta certeza que buscam e tentam honrar a tarefa de estarem preparados para as defesas brutas da “civilização”, vejo cada vez mais como um paradoxo elas existirem. Imagino que os treinamentos remontem ideias de conspiração, guerras e muitos, muitos filmes de guerra e policiais, volto a dizer estadunidenses. É preciso imaginar uma guerra para se preparar para ela.

Quem nos vende a necessidade de termos exércitos e armas prontos para um ataque? Quem nos vende a ideia de estarmos prontos contra a invasão de supostas forças extraterrestres ao planeta terra?. Enfim, assunto demais dentro de um caso, mas que vale citar.

Enquanto observava tantos detalhes de nosso tosco país, despreparado, amador, frágil e que sempre perde, oportunidade atrás de oportunidade, de fazer a coisa certa, e ajeitar cada coisa que tem possibilidade, pensava no final desastroso que era certo. Sim, cada oportunidade deveria nos obrigar a fazermos dela um novo exemplo de acerto e de depois aprendermos ainda mais com ela. Para fazermos melhor, depois.

E veio o final, tão feio quanto tudo antes.

E sonhei com aquela imagem do corpo sendo carregado daquele jeito que parecia ser um saco de areia, jogado na ambulância ali, de qualquer jeito, pré-morto. Sonhei com a frase da ex-sogra (se não me engano) dizendo a um policial que ele não estava fazendo mal a ninguém. Tudo isso, ecoou após o desfecho que a imprensa noticiava do fim de Lázaro e me perguntava — quem poderá nos fazer entender o que é fazer mal na era da pós verdade?

E veio de novo aquela imagem caótica de atendimento à imprensa como ambulantes e ‘figurantes” da cidade assistindo àquela movimentação urbana que dizem ser típica da civilização. Na entrevista de desfecho, afirmavam ter havido uma rede de apoio de fazendeiros ou homens da região, o que explicava Lázaro ter conseguido escapar de 270 homens, 3 helicópteros, drones e tanto aparato por 20 dias.

A comemoração com fogos, o desfile, as palmas eram a celebração da morte e a morte de alguém é a missão dos que "vencem".

Ninguém, mas ninguém mesmo deveria celebrar um assassinato, ninguém deve ter seu corpo carregado e jogado assim como um saco de areia.

Me lembra o caso de Canudos que afrontou a fraudada república brasileira e fora violentamente atacada pela força policial da época. Desde os primórdios de sua "declaração" aqui, os brasileiros que vivem distante ou perto dela não podem confiar nela, assim como a periferia cria sua milícia, os brasileiros sempre criaram suas leis paralelas, talvez para sobreviverem à tosac república, à polícia e aos poderosos. Talvez seja mesmo uma rede que protegia Lázaro para agir como matador, justiceiro, talvez. Talvez, não seja nada disso. Talvez. Entretanto, certamente era um homem que não tinha condições de conviver com qualquer regra de mínima humanidade pelo histórico exposto. Mas se me torno ele, deixo de ser “um exemplo" desta civilidade que defendo.

No Brasil, nada se esclarece muito bem, desde sempre todo mundo parece estar lutando sozinho para se salvar, mas fica muito claro que estamos longe da civilização que interessa à nossa humanidade.

E nossa humanidade sempre está deverá ser vista nos detalhes, não na do CPF, mas de cada detalhe (não na força bruta) em que podemos cuidar dela demonstrando que de fato, conjugamos bem o aprendizado do passado, do raciocínio usado com o conhecimento, do quanto a organização espacial nos simboliza e do valor que damos a toda e qualquer vida. Se é que temos o direito de chamar de qualquer, uma vida.

Seguimos por aqui esquecendo rapidamente de Lázaro e prontos para igualar em interesse jornalístico, outros “escândalos” da nossa assustadora falta de humanidade na sociedade do espetáculo da brutalidade e da total ausência de civilização em nossa república. Em todos os cantos e recantos, no centro e nas beiras de nossas profundas e extensas periferias geográficas e sociais, estamos cada vez mais desumanos.

O nome Lázaro provavelmente vem do grego e corresponde ao hebraico Eleazar (אלעזר), e significa literalmente “Deus ajudou”. (Fonte Wikipédia)

Fico pensando nisso tudo, especialmente como ressuscitar nossa humanidade, e o que será de novo a verdade para todos nós.

Como viemos apagando sabedorias e símbolos pagãos por leituras "simbólicas" apenas do cristianismo, recorro ao Oráculo de Delfos para que traga as simbologias de masculino e feminino. Aliás, vale trazer como curiosidade as palavras do oráculo de Delfos, respondendo aos lacedemônios quando estes pretendiam partir em guerra contra os atenienses: INVOCADO OU NÃO INVOCADO DEUS ESTARÁ PRESENTE.

Precisamos invocar conselhos e orientações para retomarmos algo mais sagrado que o CPF e fazermos das oportunidades, as possibilidades de demonstrarmos que estamos aprendendo a sermos melhores seres humanos, a cada dia, todo dia, afastando definitivamente a brutalidade de nossa alma.

O Templo de Delfos abrigava sacerdotes e sacerdotisas do Oráculo na Grécia Antiga — Crédito: elgreko/Shutterstock

Foto: João Bidu

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

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