O equilíbrio que desarmonizou o mundo.

Como venho me autoconhecendo ou conhecendo quem sou eu, hoje.

E nestes últimos tempos, obrigatoriamente temos vivido muito para dentro, estive e estou fazendo ainda mais perguntas a mim mesma.

Retomei a intuição que havia perdido. Viviam me dizendo para não pensar nela e aproveitar o tempo. Que ironia, estava perdendo tempo.

Com intuição, tempo e silêncio venho redescobrindo-me e dando importância ao que pensei antes e ninguém ouviu e que hoje ecoa.

Descobri que nos dias que treino, devo usar o corpo o resto do dia. Tenho energia para cuidar do jardim, arrumar algo na casa, pintar uma parede, fazer uma faxina.

Quando acendo o corpo, “apequeno” a alma e ela precisa ser silenciada muitas vezes. Fica confusa, enorme, cheia de perguntas e muitas vezes enrolada nela mesma. Depois de um dia dentro de um corpo em movimento, ela ganha sabedorias vindas das intuições, toma um tamanho bom.

E ela também está no corpo ajeitando cada canto da casa com muita poesia. Preciso dela assim, para estar e criar com as mãos, com olhos e pernas. Tudo precisa de poesia.

Preciso dela assim viva no corpo, se modificando com os ciclos, renovando naturalmente o espaço para que ela me caiba no agora.

Descobri também, que nos dias que não treino (não treino todos os dias) a alma se sente dona do corpo, ocupa cada pedaço dele.

Nestes dias quero escrever, ler, ver filmes bonitos e profundos e ela me pede que eu a alimente assim, aquietando o corpo e deixando-a se espalhar. Percebo livros, detalhes que faltavam e cuidadinhos.

Não é um equilíbrio entre corpo e alma. Penso que equilíbrio seja uma força que paralisa, talvez até seja um desejo de controle. E controle é um movimento do contra deixar rolar, de bloquear.

Penso que seja uma harmonia, tal qual na música, uma estrutura que caminha para guiar a melodia.

E estar em harmonia é saber ouvir o tempo e os acasos. Eles estão a todo tempo chegando como se fossem pedidos de socorro da vida.

É uma emergência da casa, às vezes de uma filha, ou mesmo de um almoço que precisa ser visto. E como fomos catequizados para sermos workaholics, e com essa devoção ao trabalho ou sistema, nasceram sinônimos associados de perseverança, concentração, equilíbrio neste tal foco em si mesmo.

Engraçado como estar bem para o trabalho virou sinônimo de equilíbrio, como se “todo o resto” não fosse trabalho e não tivesse ou fosse vida.

Imagino uma mãe pediatra que deixa de atender seu filho para atender seu cliente. Imagino um psicólogo que deixa de cuidar de um amigo ou da relação para atender um egocêntrico que levou um fora. Imagino a carreira sendo mais importante que tudo e todos, acaba dando em vida sem nenhuma harmonia.

Penso que isso seja uma total inversão de valores e que tenha deixado nossa sociedade assim desumana, focada no dinheiro e cada um em si mesmo.

Num mundo abarrotado de contradições e vazios, esquecemos de notar os acasos como chamados, como vida.

Num mundo abarrotado de depressão, de remédios para “equilibrar” tudo, penso estar certa em duvidar deste foco como a tal felicidade.

Penso que observar o corpo, a alma e os acasos podem trazer a vida que tem nos faltado, que já nos faltou e já nos esvaziou. Que esvaziou todas as relações e sentidos.

Se autoconhecer depende do que o mundo exige de você a cada dia, mediando importâncias.

Cuidar da vida é cuidar do que é importante a cada dia, do que só pode ser feito por você e não pode ser comprado e que muitas vezes precisa ser feito hoje.

Isso é aceitar com maturidade a vida, incluindo nela a edificação de nossa autonomia, sem pagar por serviços e tarefas que muitos consideram desprezíveis e chatas. Pagar para outros fazerem coisas chatas ou “menores” tem afastado as pessoas da realidade e criado subempregos.

Talvez por ser mulher entendi que tem coisa demais que a gente tem que cuidar sozinha. E tudo precisa estar sendo cuidado mesmo, o corpo, a alma, as filhas, o neto, os cachorros, o jardim, as paredes, as toalhas limpas, o almoço, os documentos, as ligações para os amigos que estão atravessando dias mais difíceis, a carreira, os imprevistos ou esperados acontecimentos inesperados.

E uma coisa ou outra pode ficar ali por um tempo menos cuidada, mas tudo precisa estar em harmonia tendo amorosamente lugar na vida de cada um. Tudo é seu, ou meu…até mesmo as coisas precisam ser cuidadas.

Para mim, a felicidade nem chega perto do poder da carreira, mas daquela certeza que eu sinto quando estou em tudo que faço e tudo que me importa está sendo bem cuidado por mim. Eu preciso cuidar da realidade, do mundo.

O equilíbrio não está em manter o foco, mas em aceitar o movimento e o que ele nos pede. E a realidade é tudo isso que está à nossa volta e foi ela que foi negligenciada pelo foco.

The European equilibrium balanced on the points of bayonets, alludes to the European situation which had been very unstable through the political ambitions of Prussia and Napoleon III. Original Publication: The Charivari — pub. 1866 (Photo by Hulton Archive/Getty Images). 1 4 h gov int, 3277479, 3363, 58, portrait male weapon gun map comic. Image supplied by Fine Art Storehouse

Às vezes manter o foco é perder totalmente a harmonia, e sem ela as notas da melodia parecem voar sem pouso, sem lugar. Não há música, só ritmo. Ritmo de uma máquina. Máquinas não sentem dor, nem tristeza, não sentem vazios e jamais serão humanas. Este equilíbrio é vendido pelo patriarcado, tem forte publicidade e poder de preenchimento do ego. Este mesmo que formou este mundo infantilizado, egocêntrico, imaturo, vazio, medicado e dopado.

Lhe convido a pensar na harmonia porque o equilíbrio que nos “venderam” parece que deixou quase o mundo todo descompensado, desumanizado e deprimido. Troque a palavra equilíbrio e foco por inflexibilidade e cegueira.

Conhecer-se significa reconhecer seu corpo, sua alma, o tempo e a história que você viveu, a que veio antes de você e como tudo foi sendo ensinado, internalizado. Estamos adoecidos por estarmos sempre olhando para uma linha reta. Creio que a terra não é plana e que a vida é muito mais coisa que viver focado numa carreira, com um fim. Porque o fim não é um objetivo, é a trajetória.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

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