O capitalismo criou milhões de carentes egocêntricos.

Carentes de panelas novas, de utensílios, de cirurgias e harmonizações faciais e corporais, de valores, de sentidos.

Sua casa nunca estará pronta e boa, seu corpo sempre poderá ser mais parecido com o de alguém muito desejado, seus cabelos sempre precisarão de mais cremes e brilho, sua alimentação deverá ser calculada com nomes científicos e por especialistas, seu conhecimento nunca será o suficiente.

Deverás passar o resto da vida em busca inquietante de novos produtos, novas emoções irreais.

Seduzir você para lhe fazer ficar em crise é o todo o objetivo do sistema.

Lhe deixar completamente encantado para trabalhar compulsivamente para ter o que lhe fizeram desejar.

O Capitalismo vai lhe deixar em crise constante. Crise da idade, do corpo, da casa, do prazer. Será que existe mais prazer do que tenho? Onde posso achar?

Será que existe uma mulher mais gostosa que a minha? E um marido melhor que o meu? E um nariz mais bonito? Cabelos?

Não é possível estar bem com o que se tem. Precisaremos sempre de mais. Mais viagens, mais compras, mais acessórios, um carro melhor, um fogão melhor, uma máquina para me fazer ganhar tempo e entrar na depressão de não saber viver sem desejar.

E cursos?! Ahh! Esses serão vendidos de forma indiscriminada. Haverá todos e de todos os tipos. Todos ganharão dinheiro lhe ensinando alguma coisa que você nem saberá como usar, talvez use 1%, talvez esteja lá apenas para ver alguém se exibindo como num teatro, ganhando para lhe dizer como “ele” é um sucesso e chamando você de uma pessoa que precisa de ajuda e autoajuda. Sim, estamos “ajudando” os deslumbrados a ganharem dinheiro.

Ser desejante de vida deveria ser um desejo nato, o impulso de experenciar conscientemente a vida sendo a trajetória dela, a parte mais interessante que é estar vivendo e se sentindo vivo.

Mas não, é preciso desejar e ser reconhecido pelo que me ensinaram que seria valorizado. E o que é valorizado? Nunca estar pronto, nunca estar bem e sempre desejar mais. Você nunca será bom o suficiente, nem seu corpo, seu rosto, sua casa, seu carro, sua vida tudo estará em crise. Tudo que lhe disseram conter felicidade, agora é lixo, antigo, velho.

Os carentes seguem carentes de objetos e seguem profundamente necessitados de exposição. É preciso expor o que se tem e cada coisinha “desimportante” que fez.

_ nos comentários das redes… — Eu Estava Lá! — Mas quem comprou a farinha fui eu! –

De cada foto, cada música, cada detalhe que é exposto é super importante dizer quem fez cada coisa, dar nomes a todos e todas. Chegaremos ao direito maior autoral de reconhecermos numa foto, que mesmo aqueles que não aparecem ali, estavam e, portanto, são também responsáveis por alguma coisa até pela climatização, seja ela qual for. É preciso provar que eu existo, porque sou um ninguém.

Haveremos de sermos obrigados a dar os nomes de todos e de tudo inserido.

Direito ou divulgação? Justiça ou carência?

Haveremos de fazer listas de passeatas para provarmos que estivemos. Precisamos ser reconhecidos a qualquer custo, afinal a vida está sem sentido, objetificada e como não há sentido nenhum em viver, sou eternamente carente de me sentir valorizado por milhares que não conheço.

Não tenho relações com quase ninguém. Meu melhor vizinho é aquele que não ouço e nem vejo. Todo mundo é ninguém por não ser nada onde deveria ser. Não tenho chance de me sentir vivo então preciso pleitear “meu direito autoral de existir” em qualquer coisa, qualquer lugar. Preciso me divulgar. Divulgar que eu existo.

E se não souberes criticar, os outros sempre irão lhe dizer o que lhe falta, o que precisa comprar, fazer e ter. Todos lhe dirão o que precisa fazer para ter mais dinheiro, coisas e sucesso, jamais a estabilidade será estável.

Capitalismo é sinônimo de eterna crise e do império da hipocrisia. A hipocrisia da felicidade e a crise dela mesma abastecida pelo vazio. Vazio de tudo, das relações, dos valores, dos objetivos com os objetos

Lá no início deste sistema de ideias do ideal burguês no século XIX, um artista crítico e capaz de criar com sentido chamado Gustave Coubert nos traria a necessidade das reflexões devidas para o tal o sistema. Com seu autorretrato nos mostra o desespero como resultado.

Gustave Courbet (Ornans, 10 de junho de 1819La Tour-de-Peilz, 31 de dezembro de 1877)

Quem nos venderá o sentido da vida? Neste momento ouso dizer que é uma propaganda de seguro de vida e aposentadoria. A crise de viver muito.

Viver muito sempre será o problema do capitalismo.

A única saída para vivermos melhor é a desobediência constante e consciente de precisarmos cada vez menos das coisas e muito mais das pessoas e do que nasce quando estamos juntos.

Música para ouvir depois de ler esse texto — "A Teia da Felicidade" de Carlinhos Brown. Pense que Felicidade se acha é em horinhas de descuido… Guimarães Rosa. Encontre tempo para cuidar de plantas, vizinhos, pessoas.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

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