Crédito Tirinhas: Devaneios sigmund e freud

Nada do que leio consegue explicar devidamente o que é amizade.

Talvez seja muita arrogância minha, pensar assim ou afirmar a frase anterior.

Num tempo tão confuso sobre valores e verdades, depois de tanta especulação sobre relacionamentos, das significações que deram aos “conhecidos” como rede para negócios, das criações das redes sociais cheias de exibições e seu esvaziamento de afetos, ser amigo já está há muito tempo diluído no egocentrismo, no interesse ou apenas na falta de reflexão sobre o que é de fato ou deveria ser uma amizade.

Primeiramente, ela sofre da direção monogâmica da religião para afetos.

Uma fidelidade exigida que nos convoca a eleger apenas, um melhor amigo ou a contar nos dedos em quem podemos confiar.

Deveríamos, ter muitos melhores amigos ou amigas em dimensões e espaços distintos.

Eu tenho muitos grandes amigos e amigas. Não consigo eleger um acima ou abaixo do outro.

Alguns pertencem há um tempo passado, a vida criou distâncias físicas, mas seguem no tamanho desta importância e afeto pelo tamanho que tiveram e permanecem tendo por respeito aos ciclos, mas não mais como confidentes atuais.

Outros, possuem diferente grandeza e aprendi com isso, a separar na diferença entre coleguismo e amizade. São próximas, mas diferentes.

Coleguismo é um justo sentimento, muito ético dos que conviveram ou dividem afazeres ou objetivos em comum, numa porção de espaço ou tempo e dentro dele há sim ou deve haver, alguma ou muita afeição construída naquela medida.

Esse lugar de colegas transpassa os anos de colégio, se estende para o trabalho, para outros grupos, onde também deve ser cultivado valores pertinentes a cada ciclo e laço feito. Colegas são relações cíclicas e bastante importantes, mas podem ser “menores”, menos íntimas, alguns podem virar amigos de verdade.

Colegas devem ter quase o tamanho de bons vizinhos. Não vizinhos que não vemos, que não queremos ver, mas sim aqueles que dividem aquele espaço e suas cabíveis trocas humanas e éticas na convivência solidária e fraterna.

Agora, amigo mesmo é outra coisa.

Não é aquele que está ali na sua agenda apenas para dias de aniversários e manutenção de status social com intenção de negócios ou indicações, ou mesmo, para desfrutar somente os melhores momentos. Para mim, isso é de novo um colega ou conhecido com algum fim.

Aliás, quem disse que colegas não frequentam casas? Acho que desde o colégio, colegas entram em nossas casas para estudos, festas de aniversários, reuniões para trabalhos de grupo e seguem assim sendo feitos na vida adulta.

Não penso que amigo deva ser uma pessoa que só lhe diz que você é o máximo, que está sempre levantando seu astral e te rendendo homenagens, inclusive este “tipo” de amor, se parece muito com os das mães infantis, narcisistas que criam filhos semideuses, sem empatia por ninguém.

Para mim, amigo ou amiga de verdade, lhe diz a verdade sobre você, tanto nas qualidades, quanto nas falhas, eles devem te lembrar sempre da sua imortalidade e da sua fragilidade.

Amigo, deveria ser o primeiro a baixar sua bola em momentos de arrogância e petulância. Deveria ser o primeiro a te fazer ver seus preconceitos, “defeitos” para que possa ter cuidados, prudência e fazer boas escolhas, para lhe ajudar a saber quem você é para saber o que te faz e fará feliz. É aquele que ajuda a você se conhecer com a generosidade e sem culpa, mas com toda a responsabilidade de lhe fazer ver, o quê deve ser importante ser visto.

Amigo não é alguém que você conhece há muito tempo. Uma pessoa que você conhece ou convive com você há muito, pode ser só uma pessoa que você encontra em muitos lugares há muito tempo, e só. Pode e deve existir um querer bem ou até mesmo, um não querer bem, exatamente pelo que o tempo já revelou, é alguém que você reconhece.

Sei que o amor, como amorosidade, é algo quase impossível de ser definido.

Há um vasto material de estudo psicológico, vasta literatura e a arte, que desde sempre tenta entender e definir, a cada tempo, o que esperamos que seja o amor, e que estamos todos à mercê do espirito de cada tempo e não saberemos explicar definitivamente por todo o sempre, o que sentimos.

Por isso mesmo, neste tempo tão egoísta, egocêntrico e do capital como um deus monogâmico, tenho sentido muito que perdemos as medidas, os sentidos, o contato com que devemos nos perguntar e sentir sobre todas as nossas relações e suas medidas.

Amor é coisa muito importante e é evidentemente impossível amar todos com o mesmo tamanho do afeto, seria injusto com os mais importantes, frágil e não teríamos a sensação de pertencimento devida, de acolhimento verdadeiro, se todos, absolutamente todos fossem igualmente iguais.

Nem é necessário escolher só um ou uma.

É fundamental termos e sentirmos amor, por bem mais que uma conta de dedos numa mão só. É necessário termos umas 6 mãos de melhores amigos e muitos colos de afeto que nos permitam sermos verdadeiramente inteiros e muitas dezenas de mãos de muitos bons colegas e vizinhos.

Amigo não é todo mundo que você conhece, é quem permite que você se conheça junto a ele e que juntos possam ser invadidos pela potência de sentir algo inexplicável.

Sentir deve voltar a ter valor, peso e lugar no mundo e que seja bem mais importante que algo que o dinheiro possa definir.

Senão todo mundo será ninguém, todo mundo será amigo, seus melhores amigos serão iguais aos seus colegas, e isso lhe fará não ter empatia por ninguém, e a não conhecer verdadeiramente o que é o amor. E há muitos.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

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