Não sigo ondas. Sou das águas.

Desde que surgiram as redes sociais sempre tenho conflitos com elas. Elas são cheias de contradições, como quase tudo que é bem humano, mas o ponto é o quanto elas trazem conflitos. Já há estudos e debates sérios, documentários como o Dilema das Redes, Privacidade Hackeada e outros que denunciam, alertam, mas é certo também que em tempos de pandemia tudo passa por elas.

Bom, meu dilema são alguns muitos.

Além dos conteúdos que passam por linguagem visual, há o tempo.

Em tempos de neoliberalismo e campanhas globais de “VAE” do empreendedorismo individual, os artistas estão mais do que nunca na fase “faça você mesmo” tudo. Crie a composição para não precisar pagar o direito autoral ou para lucrar com ele, toque todos os instrumentos, ou seja, produza para não ter que pagar cachês (que não são viáveis e possíveis), faça a arte da capa, seja o produtor fonográfico que contrata a distribuidora e coloca nas plataformas de streaming e divulgue nas redes. Todas elas.

E aí o acordar em home office é produzir e estar nas redes.

Ver notícias e posts dos calendários de datas que ajudam a ter conteúdos diários.

Vou? Faço? Uso disso? Faz tempo que não posto?

O que de fato é relevante postar no meio de tantas notícias importantes? Entender notícias.

Se posicionar, comentar, responder ou criar posts. Pensar em imagens para elas.

Ou dar repost?

Responder comentários no feed, e inbox. Afinal são redes sociais.

Responder também o WhatsApp. Assistir e ver tudo que mandam. Ou quase.

Mandar emojis e figurinhas novas. Faz parte ter novas?

Só emoji pode parecer que não é você.

Tudo é por aqui. Compras de farmácia, marcação de encontros virtuais, acertos de serviços.

Uns por áudio, outros por texto.

Comentar de novo. Curtir posts por mérito, lendo e apoiando conteúdos relevantes.

Assistir lives. Dezenas.

Sigo quantas pessoas em cada rede? Vi tudo de todos? Quem postou algo relevante demais?

Será que vi tudo ou aquilo que é mais importante?

O que será mais importante?

Quais os trends Topics de hoje? E dá para comentar sem ler tudo que houve?

Por minuto são muitas.

Um desassossego.

Rir um pouco com inteligência pela inteligência, também. Não dura muito tempo. Só se ri uma vez.

Indignar-se rindo. Riso passa rápido pois logo em seguida outra notícia cessa a alegria.

Logo tem outra bomba.

Sofrer. Sentir. Sentir a dor do outro.

Sentir-se impotente. Pequenada.

Tentar ser inspiração. Tentar levar inspiração. Pensar como levar inspiração.

Talvez quem conheça As Quatro Estações não enxergue tanta realidade em mim.

Talvez me vejam alienada. Outros politizada demais.

Talvez não tenham entendido ou eu não tenha mostrado que não sigo as ondas. Talvez não tenham visto tudo.

Toda vez que tudo fica muito mais confuso do que já é, eu me recolho para sobrevoar o mar. Eu só nado em lugar onde já entendi de onde vem o vento, que força tem ele e se as ondas tem tamanho para surfar ou observar.

Só entro no mar se tiver certeza que não serei engolida por ele. Gosto de me banhar em águas calmas. Pelo Candomblé, sou filha de Oxum e Yemanjá.

Sou das águas. Não das ondas.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras dançam. Pensa e sente demais.

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