Desenho de Manoel de Barros

A música que mais tenho escutado não tem letra, nem voz, tem muito silêncio e música dentro dela. Posso chamá-la de abstrata.

Faço uso das minhas playlists com muito gosto e paixão. Uso para me conectar com as plantas, quando estou no jardim; uso para cozinhar, caminhar, treinar, escrever.

Todas elas me servem como conexão com algo abstrato, que não consigo e talvez nem queira definir. Pode parecer muito estranho para uma cantora de canções, mas talvez seja exatamente o desejo de sentir sem condução das palavras.

Quero voltar a sentir sem que estejam me dizendo nada. Só pelo som.

Uso Manoel de Barros também e muito, “Sou livre para o silêncio das formas e das cores” e quero cada vez mais ser mais livre. Assim, tenho sentido melhor. Sem letras, palavras, vozes e especialmente sem imagens.

Escutando Nils Frahm me sinto no melhor silêncio me escutando, assim ao lado dele ali, tocando. Imagino tanto, como quando estou lendo um livro de literatura, estou lá dentro.

Tem uns sons que parecem ruídos aos ouvidos desatentos, mas que alguns são sons do próprio tocar (toque) do piano, o som do pé no pedal e talvez das teclas e me trazem uma sensação de presença enorme. Há outros.

Especialmente, sinto a presença humana.

Sinto que tem gente tocando do outro lado.

Não é à toa que ela tem me feito tanta companhia.

Não penso, apenas sinto. Não preciso me defender criticando a letra que pode me levar a pensar que algo é bom, mas não é mais e assim consigo me entregar com muita confiança para onde quer que seja que essa música for me levar.

É uma música que aparentemente parece com a tal famosa onda de new age para os não iniciados, mas não é nada parecido com ela, para mim.

Tem algo de erudito, é instrumental com melodias lindas, tem muito dos abstratos títulos das músicas antes de se tornarem canções. Tem muito.

A abstração pelo som.

Desenho de Manoel de Barros

Tem títulos com nomes das notas, com horários, com palavras curtas que se parecem com as artes plásticas contemporânea e outros mais com palavras mesmo.

Na arte contemporânea é preciso fazer perguntas à ela, descobrir que o símbolo precisa ser desvendado e para compreendê-lo é preciso lhe fazer perguntas, como uma investigação pessoal. É percurso, não objetivo.

Não fico triste, fico num silêncio apurado.

Me sinto “zerando” impressões organicamente.

E repetindo o que já disse sobre meus sentidos, minha audição é a mais sensível deles.

Gosto de música que me leva para dentro dela.

Assim tenho feito.

Não a escuto todo tempo. Escuto quando preciso estar e me separar do mundo louco que alguns tentam seguir construindo. Quero me “desconfundir” desse mundo, tentando usar Manoel de novo e usando muito outra frase dele “Passava os dias ali, quieto no meio das coisas miúdas. E me encantei.”

Tal como o encontro que tive com a poesia de Manoel de Barros, que me desarrumou o sentido da palavra, a música essencialmente instrumental que tenho escutado, é quase como uma nova organização orgânica da matéria-prima da música, — o som.

“Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.” Manoel de Barros

Obrigada Manoel por me reapresentar a palavra e a poesia, de novo.

Obrigada Nils por me reapresentar a música e ao som.

De tanto caçar, tenho achado alguma liberdade.

Pergunto: Para onde você vai com a música que escuta?

Nota.: Tem uma pequenina e grande Playlist com nome de Música Abstrata no meu perfil no Spotify (vaniaabreuoficial) com direito a incluir nela, uma linda música intitulada Dreamland, em versão só com piano de Alexis Ffrench. Não consigo ver sobre autores, técnicos de gravação pois neste tempo a música não me deixa ver mais.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial