Home Office e Office home — feira

Ontem, foi um “domingo” para mim.

Eu não gosto do formato, nem do destino que deram a este dia.

Domus de casa, dia de casa. Para quem é a casa?

Tem algo de muito cafona, de envelhecido no uso deste dia.

Alguns gastam o dia, sem fazer nada (geralmente os homens). Nada mesmo.

Ou em ressaca da noite do sábado ou num sofá jogado. Nada mesmo.

Meu “bode” não é com o não fazer nada, muito usado pela expressão “Il dolce far niente” dos italianos e sinônimo de aproveitar a vida.

Acho engraçado até que se imponha algo contra o modo “industrial” do neoliberalismo, muito festejado desde a década de 80, o tal “workaholic”, que fora exibido com muito orgulho por gerações “condicionadas” pelos filmes dos estadunidenses. É bonito para muita gente e o mercado ama, seres viciados não apenas no trabalho, mas também nas conquistas e realizações profissionais que eles fazem para enriquecer o mercado.

A pandemia tem tirado a possibilidade da gente sair de casa para fugir desta rotina, de algumas delas. Seja pelo home office e ouso modificar a expressão do “office home” sempre presente na rotina feminina (ou que recai apenas sobre um — não importa o gênero) nesta divisão herdada dos casamentos heteros cafonas que amam domingos, ou seja, duplo office para uns.

Sim, toda rotina precisa de respiração e não vejo no domingo “no modus” como é aplicado, como uma pausa. É uma pausa com intenções de determinar a utilidade dos dias e que pesa muito e de novo, sobre as mulheres.

Dentre esta determinação de dias e de obrigações, o dia da casa está há muito tempo, cheio de vícios, do patriarcado, do capitalismo, de sexismo, de religião católica.

Como se a semana inglesa com seu horário insano, tanto para o trabalho, como para determinar a rotina de estudos e horários escolares, fosse assim um modo de pegar a vida das pessoas e torna-la produtiva, nos dando dois dias de descanso, mais ou menos em combinado com a Igreja. Numa semana útil, com nomes para feiras e comércios e dois dias de “folga útil” que acabam sendo encaixados conforme comércio e religião sempre desejaram. Sábado para dar uma geral em qualquer coisa e o domingo você fica com o" para ir à missa e almoçar com a família" e outras coisitas repetidas. Fomos catequizados pela semana inglesa e pelo calendário gregoriano. E cá, entre nós — o que é a programação da televisão aos domingos, né?

Enfim, domingos me lembram maridos barrigudos, cerveja demais, assuntos de menos, silêncio demais, catolicismo demais e mais formalidades desta sociedade “adoecida” entre rotinas e destinos pré-determinados.

Aliás, diga-se de passagem, nos grandes centros urbanos, comprar virou diversão e muita gente usa as tais folgas para se divertir muito, gastando seu dinheiro e todo seu tempo de vida entre trabalhar o tempo inteiro e gastar o que sobra comprando coisas infindavelmente. Um ciclo de gastar vida para nada e encher a casa de nadas.

Ontem, fiquei de bode entre este ciclo e outro, — o do cansaço feminino que geralmente é onerado com todos os cuidados do espaço-casa para fazer valer esta rotina para todos, e que é ainda mais carregada na pandemia. Vide calendário compartilhado acima de uma das rotinas que recaem sobre a mulher, senão a execução, a gestão e supervisão de todos.

Gosto de pensar que todos os dias são úteis e servem na mesma medida para diversão, sem que isso seja irresponsável ou leviano. Sou autônoma e apesar dos prazos de tarefas e dos dias terem seus horários propícios para os ciclos da vida, morro de medo de ficar “velha” assim, seguindo este uso para os dias.

Acho muito feio ser workaholic, assim como, acho muito “démodé” gente que não sabe o que fazer aos domingos e com o tempo. Ser produtivo deve ser ressignificado com um novo calendário mágico do tempo que deve incluir olhar para o céu, dançar nos dias de semana, ler poesia no almoço, ter tempo para prosear com vizinhos e amigos todos os dias.

Entre tantos cursos, autoajudas, condenação de procrastinação e dicas de planners com sugestão de assuntos até para as redes sociais, só sobra tempo para buscar como fazer melhor cada coisa e isso tudo junto vai nos fazer enlouquecer mesmo. Este modelo está falido e muito adoecido e adoecendo as novas gerações.

Não tenho medo do tempo, tenho pavor de ficar cafona, de seguir estes modelos de utilização dos dias, de estar e ficar condicionada ao calendário do relógio de ponto e de passar a acordar aos domingos, sem saber o que fazer comigo neles.

Daí é um pulinho para ficar bem “tiozinho”, como dizem aqui em São Paulo e deixar o domingo com aquela de frango assado na mesa, com televisão ligada o dia inteiro e fazer dele um dia fantasticamente desperdiçado.

Ontem, não desperdicei meu dia. Só estava reagindo a este mesmo calendário que me obrigaria a ser “útil” na segunda-feira.

Nota: Não tem revisão gramatical. Escrevi assim, como numa fala desabafo bem confusa, digna de uma sessão de terapia com caráter estrutural de sociedade.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras dançam. Pensa e sente demais.

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