Rezar deveria ser, se encontrar com o sagrado.

Ela nasceu genuinamente como sendo um contato com o sagrado. Umas das acepções da palavra Xamã é daquele que enxerga no escuro. É místico para posicionar e guiar e não para entregar. Virou outra coisa, outra reza.

Essa reza ganha lugar na rotina de uma geração “preguiçosa”, despreparada pela repetição de comportamentos, pela aceitação de modelos patriarcais, pela falta de consciência.

Essas gerações rezavam (e ainda rezam) para que Deus resolva tudo.

Para curar feridas, para que os maridos deixassem de ser truculentos, violentos, para que os filhos crescessem e se “ajeitassem”, para que os seus prosperassem e seguissem o mesmo modelo. Qualquer diferença seria pecado.

Contraditoriamente e convenientemente as bênçãos seriam concretas e materiais.

Uma reza cheia de desejos de ganhos terrenos.

Uma reza preguiçosa e arrogante dos que creem, que sendo fundamentalistas serão atendidos por Deus.

E vejam é um Deus homem e, portanto, creio que mais adorado pelas mulheres. Reparem que os homens pouco rezam e talvez pela certeza de que estão mais próximos desta divindade e que seus “impulsos” são de Deus. São os enviados.

Homens sentem-se divinos, potentes, legitimados por Ele.

Mulheres rezam para Deus resolver e para que Nossa Senhora possa lhe fazer suportar tanta dor.

Não era, nem é uma reza para que “Deus” lhe mande uma iluminação e ela (a pessoa) saiba ou encontre algo para fazer e resolver. É algo para ser resolvido por Deus.

É uma reza arrogante, dessas que entregam tudo aos outros. Estou aqui para observar o mundo se resolver e fazer o que eu acho certo. Dou ordens para empregados, filhos, amigos e até para Deus.

A reza que condena para pedir que o outro enxergue a verdade (na verdade que seja punido) e veja que está errado.

Cada reza tem uma lista. Uma lista infindável de punição e de ganhos para os que acredita merecerem.

Essa reza tem destino genético quase sempre, apela pelos de sangue, pelo clã e suas vitórias sobre os outros. Essa pessoa não quer saber do mistério, só da justiça e de que quando ela se fará.

Reza, reza, reza, reza na espera de que Deus explique porque nada, até agora, fora explicado pelas linhas tortas.

E cada vez mais que reza, menos entende, menos aceita, mais condena o mundo.

Reza porque não compreende a justiça de Deus e espera que ela seja punitiva.

Deseja morrer muitas vezes para falar com Deus diretamente e saber os porquês e quando tudo se fará justo segundo acredita que seja o justo.

As palavras que leu na Bíblia chegam para confirmar que todo o sofrimento será explicado e vive juntando perguntas.

Junta em cada reza, todo pedido antigo e mais um novo. Faz uma lista enorme de pedidos, como lembrança para que Deus não esqueça nenhuma dor dela.

Pede para Maria falar com Deus. Para cada santo há um pedido específico.

Sua vida é feita de ausências e pedidos. Tenta se confortar com agradecimentos das migalhas que lhe foram oferecidas.

Ela precisa saber porque não foi atendida, afinal de contas ela obedeceu, seguiu, repetiu e ninguém a ouviu, e o mundo só fica pior.

Há de ter uma explicação para isso tudo.

Reza, reza, repete palavras, acende velas talvez. Reza, reza, reza para esquecer que está viva e não consegue ver beleza e sentido para seguir vivendo.

Vive esperando pela vida que sequer fora prometida nos livros sagrados.

Era preciso ter olhado para o céu, ter sentido a água do mar no corpo, ter ouvido a boa música profana, ter dançado ao luar, ter amado os filhos e filhas pelo que eles são de diferentes, ter feito amor muitas vezes sem vergonha, ter dado muitas risadas com amigos, ter buscado Deus fora dos livros.

Deveria ter andado de pés descalços na grama, na areia da praia, ter molhado a cabeça numa cachoeira e em silêncio sentir tudo que sente naquele momento.

Não devia ter acimentado o quintal, ter construído uma cobertura na frente da sua casa para guardar o carro e impedir que o sol entrasse. Devia ter cuidado de vasos de plantas e celebrado a chegada das flores.

Era preciso ter dito, reclamado, era preciso não ter aceitado a dor. Era preciso ter mantido tudo quanto é forma de vida na sua vida, todos os dias e aceitar todos os outros mistérios, a beleza inexplicável e a inexplicável sensação de se sentir viva. Nela mora tudo o que pode ser chamado de sagrado, sem pecado.

Eu e Nina em 2011 (meu sobrinho Caio entrecortado à direita). Estávamos todos vendo mistérios e belezas inexplicáveis e tocando o sagrado com uma alegria imensa.

Eu não rezo há muito tempo. Acendo velas e incensos, coloco músicas, danço, observo o céu, ando descalça, não acimento meu quintal, sinto meus desejos e sempre vejo coisas sagradas no amor. Gosto de viver cheia de mistério.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

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