Era para ser outro futuro

Foto: Fernando Lazleo

Gostaria de estar dormindo. São 05:08 da manhã de domingo. De um domingo deste longo período de pandemia, neste país, e talvez seja justo dizer neste planeta no ano de 2021.

Acordei por volta das 04 da manhã. Eu esperava ter uma longa e forte noite de sono. Aquele sono justo de cansaço e de paz. Faltou a paz.

Penso que a paz seja muito íntima da esperança, daquela certeza de que mesmo as coisas dando errado, as pessoas estão e estariam aprendendo com elas, e foram capazes de enxergar a força imperativa de que fazer o bem e aprender sua necessidade é o único caminho de viver uma vida de verdade.

Dizem que ela não existe. Ela existe sim e muito.

Hoje não tenho mais essa certeza de que a maioria possa aprender. Os maus, os hipócritas, ou dissimulados estão se juntando, seja publicamente, seja na sujeira que aparece e se fortalece sombriamente nas relações mais íntimas.

Desculpe o termo, mas há um submundo nas relações. O que seria ou deveria ser um canto de segredos virou licença para uma vida de mentiras. Segredos são coisas que guardamos porque causam dor e nos envergonham, e por isso são momentos que trouxeram profundos ensinamentos. Entretanto é muitíssimo diferente da ideia de cultuarmos o lado sombrio, como se ele fosse o lado justo e o lado bom fosse a hipocrisia posta no e para o teatro social.

É como se a bondade, a lealdade, a verdade fossem fantasias. Não são. Elas existem e são profundamente restauradoras da paz, ainda que entender a natureza do mal que fora formado tenha alguma explicação. Sim, o mal é formado. Não é um diabo, um espirito que nos acompanha. Ele é colocado dentro das pessoas e com brutalidade extrema, a ponto de muitos acreditarem desde pequenos que ele é mais forte e está em todos.

Me reviso constantemente nesta defesa tentando achar nela traços do cristianismo que recebi. Talvez tenha e ouso dizer que talvez seja a parte mais potente desta filosofia que fora cunhada paradoxalmente como um sistema de poder que se tornou perverso com as diferenças e com a natureza humana. Me senti e me sinto aos olhos de muitos, por muitas vezes, muito moralista. Sinto que meus valores são vistos com essa moralidade religiosa.

Tenho a sensação de que meus olhos, meus gestos e minha postura incomodam muito os que sabem que vivem na hipocrisia. É como se eles pudessem reconhecer que meus olhos veem. Pode parecer arrogância e que me dou um lugar com um certo ar de superioridade pelo julgamento. Sim, julgo, critico, analiso, reflito, mas não condeno, mesmo sabendo que a soma de tantas atitudes assim, nos condenarão em coletivo e já nos condenaram a não acreditarmos o tanto quanto precisamos para vivermos melhor e bem-querer.

Outro dia, assistindo à CPI, ouço no ar frases repetidas contra figuras políticas mais permanentes e retruco dizendo, — a gente tem que torcer para que a “coisa certa” seja feita, não importa por quem.

Perdemos a noção total de verdade, de coragem porque não há verdade sem coragem e esse sistema de relações nos convoca a sermos mentirosos o tempo inteiro. Falo em plural porque aqui estou, mas não compartilho desta aceitação, ainda que seja hipocrisia da minha parte, colocar-me acima de todos. Querem me convencer de que a vida é uma mentira, que não há amor sem interesse, que todos são egoístas, que as pessoas mentem e traem o tempo inteiro.

Não.

Assim como os perversos estão se juntando, fazendo coros e grupos, eu preciso achar os meus seres humanos menos desumanos. Preciso encontrar amigos que saibam enxergar a verdade antes de irem conscientemente para “o lado negro da força”.

Eu vi muitos filmes americanos e soube julgá-los para entender as simbologias e não ser catequizada na hipocrisia do norte e me salvei por não ver muitas séries, incluindo a tal série “Friends” que penso merecer analise de todas as ciências humanas juntas, pelo papel que pode ter tido na construção de irresponsabilidades infantilmente afetivas que aumentam o lado negro dos valores. Tenho feito muita força para não me tornar amargurada, penso que ela seja significada da falta de esperança nas coisas boas, nas boas pessoas.

A realidade tem lado negro, tem CPI, tem discussão de gerações sem pertencimento e em disputa enquanto deveriam estarem juntas tentando ajudar o mundo a ser melhor, sem a arrogância de disputar quem é mais “bacana ou mais “friend” deles”.

Estou cansada de ver tanta traição entre casais, num mundo em já se pode combinar “relacionamento aberto” e em que já tem até psicólogo on-line, tô cansada de ouvir tanto eu te amo dito como tchau e não ter amor nenhum nele. Tô cansada das pessoas serem tão covardes com suas intenções, tornando seus medos uma justificativa “honesta” para fazer mal aos outros e ao mundo e seguirem usando, fingindo, manipulando a realidade e tornando-a insuportável.

Observo que as pessoas tem fugido do momento em que podem fazer as coisas certas e corrigirem a “merda” que fizeram. Quando chega a hora, elas simplesmente fogem, mentem, hipocritamente fingem que não fizeram, que não foram, que não são e o pior seguem na mentira. Daí seguimos nesse ciclo de estarmos vendo e fingindo que não existem e isso nos faz pensar e acreditar que a natureza humana é assim. Quero dizer que não sou. Sou humanamente frágil e isso é de verdade. Sei que há muitos como eu.

Ter falhas é humano contudo faltas são vazios, rachaduras, cicatrizes que só podem ser preenchidas com a mais pura das verdades. Não existe caminho do meio.

Existe o caminho da coragem de olhar para as falhas e admiti-las, cuidando delas como espaços que precisam de bondade e generosidade. Existe a honestidade de entregar ao outro a verdade e ambos cuidarem juntos da realidade.

Temos um mundo de covardes, hipócritas, gente que passeia de moto sobre cadáveres, gente que mente compulsivamente e dissimula ser seu amigo para fazer uso de alguma coisa sua, para te enganar mesmo. A tal ideia de se dar bem na vida. Uma falácia fantasiosa porque não há bem nenhum nisso.

Essa gente está se juntando pela sombra e criando uma poderosa estrela da morte da humanidade. Sejamos corajosamente verdadeiros e tenhamos coragem de fazermos o que é o certo. E chega desse blá, blá, blá de que tenho minha verdade, tenho o meu jeito de fazer as coisas. Existe sim o certo, o belo, o verdadeiro, o honesto e existe o covarde, a mentira e a desonestidade.

Nota 1: Desconfio que as grandes cidades são lugares perfeitamente construídos para alimentar o lado negro da força. O anonimato, o não ser ninguém, a falta de pertencimento de família que tenta compensar com “apego” a grupos escolares, a ascendência, a gerações com nomes (precisam estudar isso também), aos condomínios que não são comunidades e tanto mais.

São 06:10 e penso em planos para me salvar deste feio destino de cultuar em mim a desesperança. Preciso encontrar um lugar no mundo em que as pessoas estejam livres do anonimato, e que voltem a ter vergonha, a tal vergonha que alimenta a coragem.

Nota 2.: Não à toa trouxe o projeto artístico do Seio da Bahia em 2019. Não é à toa que trago foto deste belo ensaio para capa do disco, aqui de volta. O mundo e o futuro iriam ser outros, a gente tinha pegado outro caminho e desviaram muito. Foto de Fernando Lazleo.

Escute "Na Volta que o Mundo Dá" hoje. Esta belíssima canção de Vicente Barrêto com Letra de Paulo César Pinheiro e sinta muito o que é verdade. Tenho saudade de pertencimento, de valores, de amores e gente de verdade.

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

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