Léo Mendes (violão), Xinho Rodrigues (Contrabaixo), Eu e Chrys Galante na Percussão.

Antes de hoje

Eu era outra pessoa.

A Bahia era outro lugar e o Brasil também.

O mundo era outro mundo e o futuro parecia que seria outro, antes de hoje.

Eu segui o caminho de continuar a amar o que acreditei ser inseparável de minha alma, de meu jeito, do que sou, sem afirmações que criassem desencontros e ao mesmo tempo me guiassem para que eu não ficasse parada no tempo e ensimesmada com o outro.

Tudo anda junto ou deveria.

Eu e o meu lugar somos inseparáveis, assim como meu lugar e o mundo.

Assim como não existe parte sem um todo, o todo me cria, me dá forma, me diz parte do que sou ou serei e também me modifica.

Não dá para pertencer ao mundo todo, a gente é sempre de algum lugar, para estar no mundo todo.

Antes, tudo era melhor?

Não, nem tudo. Muita coisa mais muita coisa mesmo, precisava urgentemente aceitar a mudança ou a compreensão da verdadeira verdade. Contudo ainda não aprendemos que as medidas de escolhas do que precisamos aceitar que deve mudar são tão importantes quanto as mudanças em si mesmas. Cada lugar, cada pessoa “precisa” de mudanças diferentes.

É verdade, havia muita coisa “escondida e feia” (pra ser bem bonitinha com a crueldade) que precisava ser vista de verdade, corrigida, desfeita, exposta para criar consciência e justiça, mas volto a dizer, nem tudo era pior, antes de hoje. Não se descarta tanto conhecimento, a história, vidas e a vida.

Antes de hoje o que queríamos? Queríamos mesmo o que nos foi dito para desejar? E o que nos ensinaram a desejar era assim tão nosso? Caberia nossa felicidade nesses desejos de tantos objetos e usos que nos foram colocados? Queríamos viver assim?

Acho que não queríamos tanto. Escolhemos muito da nossa pretensa “felicidade” por indução, pelo tempo histórico deste sistema mágico de criar desejo e angústia, e algumas coisas de nossa natureza humana foram propositalmente esquecidas para que esquecêssemos o que somos.

Nos disseram até que a vida deveria ser divertida, intensa, cheia de viagens e prazeres, compras e uma infinidade de “felicidade” descartável.

Como podemos viver bem se nada faz sentido?

Antes de hoje, queríamos um amor que durasse. E fosse bom e honesto.

Queríamos que algumas coisas durassem. Não queríamos tudo novo, sempre. Não desse jeito.

Queríamos um lugar para vivermos bem.

Nada disso seria ruim, a não ser que não tivesse sido imposto sem nenhuma consciência. Foi posto tão rápido que sequer tivemos a chance de escolher.

Os sedutores são tão sedutores que produzem encantamento, nos enganam e ainda nos tornam cruéis por pensar mal deles.

Mais que os fins, esqueceram de nos falar sobre os propósitos, do antes de cada coisa, dos por quês e a quem estaríamos agradando, antes e depois.

A vida muda sempre e mudar não é abandonar tudo para trás, viver em intensidade de descarte, sem calendário, sem estar, nem ser nada. Mudar é admitir a parte que muda naturalmente, a cada tempo e no seu tempo de vida e as que já estão obsoletas porque não se renovaram. Os conservadores não querem mudar o que é preciso mudar, os inconscientes mudam tudo aquilo o que é um processo de autodestruição.

Tudo está em movimento na natureza, mas não esse.

A árvore não pode deixar de ser árvore, sequer a baleia pensa em nadar em outros mares de outros planetas. Há algo que sempre continua. É daqui.

Todos os seres vivos precisam de algum pertencimento, ainda que se movam e de alguma estabilidade e isso vale para tudo que há no planeta.

Não dá sequer para voltar para casa, se ela mudar de lugar todo dia.

Ser de todo lugar, neste caso, é não ser, nem estar em lugar nenhum.

Não dá para viver eternamente em alto mar e sem horizonte.

Antes de hoje, alguma estabilidade era possível e desejada.

Hoje, não mais.

Você está sendo preparado para abandonar tudo, a todo instante, para o que nos disseram que seria viver bem.

Hoje em dia gostar do novo é obrigatório. E não é qualquer novo., é um novo absolutamente desconhecido, perigoso.

Eu gosto de gente que tem memória, respeito, pertencimento, apreço pelo tempo e por coisas bem usadas e pelo novo que vale.

Eu gosto de gente que tem carro velho. Acho um charme.

Confio em gente que cuida de pessoas, de coisas, de plantas, de bichos como bicho. Que não compra tudo novo sempre, por não ter cuidado antes.

Confio em gente que tem cuidado com as palavras.

Gosto de gente que tem estima por coisas que tem valor somente para ela e que sabem o que tem valor para o todo.

Gente que mantém objetos antigos de família, que tem uma peça de roupa que não joga fora de jeito nenhum.

Gente que aprende a gostar dos clássicos e ouve a música que ainda não compreende.

Gente que pensa nos valores, nas lembranças, na ancestralidade.

Gente que pensa no tempo, nas importâncias que não devem desaparecer e seguem aprendendo a ressignificá-las.

Antes de hoje, a gente queria viver muito e viver muito era envelhecer com saúde e a sabedoria de ter aprendido a dividir aprendizados e reaprender a todo tempo estar cheio de desejos cabíveis.

Há algum tempo “já” estamos vivendo cada vez mais e vivendo cada vez menos, vendo menos, sentindo menos porque o “já” é só um instante para esquecer no segundo “já”. Tudo está posto para se tornar sem graça no instante seguinte.

Antes de hoje, a gente tinha médico pra vida toda. E médico era alguém que gostava de cuidar das pessoas.

Antes de hoje, havia uma professora inesquecível que havia enxergado sua alma.

E vizinho bom era aquele que conhecíamos e contávamos e não como é atualmente que vizinho bom é aquele que a gente nem vê.

E os primeiros amores? Eles tinham sabor de desejo de um amor pra lembrar uma vida toda, com a certeza de que lhe cabia pertencer àquele tempo de antes de sabermos o que era amor mesmo.

Reconhecíamos os ciclos, os tempos e os limites mais fortes que os desejos. Reconhecíamos e admitíamos o mistério.

O que “deixamos” nas antigas redes sociais? Quem lembra? Então, é para esquecer mesmo.

Antes de hoje, recebíamos cartas e cartões escritos à mão e a palavra tinha compromisso com você e o outro. Eram escritas para serem guardadas.

E álbuns de fotografias eram criados para serem vistos e revistos pessoalmente.

Hoje “desejamos” esquecer amores, noite de amores, passagens da vida e paisagens indesejáveis, pessoas que conhecemos e muitos que foram até amigos. Esquecer virou o ensinamento dos mais velhos que envelheceram amargurados e sem sabedoria alguma, descartados da sociedade como passivos.

Estamos construindo dias e noites passáveis e descartáveis, uma vida esquecível e cheia de vergonha orgulhosa de ter vivido.

O mar sempre será o mar, nem por isso torna-se desinteressante, feio, desnecessário, obsoleto, velho e ultrapassado.

Assim como o céu. Assim como muita coisa, muita gente, muito de todos nós e do que inventamos.

A gente precisa de vizinhos, amigos, professores, médicos, amor e relações que mudem para que durem a vida toda.

O mundo inteiro é muito grande e seguirá sendo enorme para nos dar colo, casa e vida.

Quase tudo muda, na verdade tudo deveria se reciclar, se renovar, tendo algo do antes de hoje, sempre.

A gente deve aprender a preservar para seguir mudando.

Não adianta inventar um mundo que não caiba tudo e todo mundo, sequer caiba no planeta. Não haverá vida alguma, depois.

Nota.: Olhe em volta, guarde o que faz sentido, celebre o novo que deve chegar e o antigo que sempre deve ser lembrado e preservado. Afinal de contas a eternidade de momentos e da vida é o objetivo.

Assista (se puder) a live do dia 21 de agosto chamada Antes de Hoje no canal do YouTube do SESC Bahia Oficial, escute (se desejar) a playlist no meu perfil vaniaabreuoficial no Spotify e pense muito no que você deseja viver.

Foto da live de Penélope @pe.faria

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

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