Vania Abreu Oficial

Sign in

Léo Mendes (violão), Xinho Rodrigues (Contrabaixo), Eu e Chrys Galante na Percussão.

Antes de hoje

Eu era outra pessoa.

A Bahia era outro lugar e o Brasil também.

O mundo era outro mundo e o futuro parecia que seria outro, antes de hoje.

Eu segui o caminho de continuar a amar o que acreditei ser inseparável de minha alma, de meu jeito, do que sou, sem afirmações que criassem desencontros e ao mesmo tempo me guiassem para que eu não ficasse parada no tempo e ensimesmada com o outro.

Tudo anda junto ou deveria.

Eu e o meu lugar somos inseparáveis, assim como meu lugar e o mundo.

Assim como não existe…


Foto de acervo pessoal. Eu no terminal do Ferry Boat na Ilha de Itaparica — Bahia

Tampa de isopor

Calçadas

Enseadas

Improvisos

Como quem aprende a dirigir em carro velho.

Como quem aprende antes do mundo virar um lugar só de treino para eternos campeonatos

Ruas e espaços sem medo

Ausência de telas

Família que vale ter

Lugar pequeno

Tudo grande, tudo perto

Horizonte

Tempo

Muito a inventar

Palavras que parecem perdidas e soltas reafirmam que ainda tudo que se torna grande nasce bem simples, começa improvisado, tem sabor de tudo que é antigo, junto com nome, apelidos, objetos emprestados e reutilizados.

Tudo que é humano é natural, simples.

Tem sabor de afeto, tem carinho, amor…


Crédito Tirinhas: Devaneios sigmund e freud

Nada do que leio consegue explicar devidamente o que é amizade.

Talvez seja muita arrogância minha, pensar assim ou afirmar a frase anterior.

Num tempo tão confuso sobre valores e verdades, depois de tanta especulação sobre relacionamentos, das significações que deram aos “conhecidos” como rede para negócios, das criações das redes sociais cheias de exibições e seu esvaziamento de afetos, ser amigo já está há muito tempo diluído no egocentrismo, no interesse ou apenas na falta de reflexão sobre o que é de fato ou deveria ser uma amizade.

Primeiramente, ela sofre da direção monogâmica da religião para afetos.

Uma…


Rezar deveria ser, se encontrar com o sagrado.

Ela nasceu genuinamente como sendo um contato com o sagrado. Umas das acepções da palavra Xamã é daquele que enxerga no escuro. É místico para posicionar e guiar e não para entregar. Virou outra coisa, outra reza.

Essa reza ganha lugar na rotina de uma geração “preguiçosa”, despreparada pela repetição de comportamentos, pela aceitação de modelos patriarcais, pela falta de consciência.

Essas gerações rezavam (e ainda rezam) para que Deus resolva tudo.

Para curar feridas, para que os maridos deixassem de ser truculentos, violentos, para que os filhos crescessem e se “ajeitassem”…


O caso Lázaro.

Na velocidade que tudo tem hoje, toda a repercussão e morte de Lázaro Barbosa já é coisa do passado. Somos uma sociedade que cria compulsivamente para esquecer.

A vida nunca foi tão efemeramente banal, desprezível, somos objetos. Parece que por haver tanta gente no mundo, a perda de “alguns”, individualmente ou coletivamente não parece pesar no sentir. Nos dirão os positivos tóxicos, tudo passa. Vale para Lázaro e números de pandemia.

Disseram-nos que ninguém é insubstituível e ressignificamos para "todos" podem morrer com desprezível desimportância.

Que confusão que fizeram com a responsabilidade de estar vivo.

Agora, imagine…


Foto: Fernando Lazleo

Gostaria de estar dormindo. São 05:08 da manhã de domingo. De um domingo deste longo período de pandemia, neste país, e talvez seja justo dizer neste planeta no ano de 2021.

Acordei por volta das 04 da manhã. Eu esperava ter uma longa e forte noite de sono. Aquele sono justo de cansaço e de paz. Faltou a paz.

Penso que a paz seja muito íntima da esperança, daquela certeza de que mesmo as coisas dando errado, as pessoas estão e estariam aprendendo com elas, e foram capazes de enxergar a força imperativa de que fazer o bem e aprender…


O capitalismo criou milhões de carentes egocêntricos.

Carentes de panelas novas, de utensílios, de cirurgias e harmonizações faciais e corporais, de valores, de sentidos.

Sua casa nunca estará pronta e boa, seu corpo sempre poderá ser mais parecido com o de alguém muito desejado, seus cabelos sempre precisarão de mais cremes e brilho, sua alimentação deverá ser calculada com nomes científicos e por especialistas, seu conhecimento nunca será o suficiente.

Deverás passar o resto da vida em busca inquietante de novos produtos, novas emoções irreais.

Seduzir você para lhe fazer ficar em crise é o todo o objetivo do sistema.


Como venho me autoconhecendo ou conhecendo quem sou eu, hoje.

E nestes últimos tempos, obrigatoriamente temos vivido muito para dentro, estive e estou fazendo ainda mais perguntas a mim mesma.

Retomei a intuição que havia perdido. Viviam me dizendo para não pensar nela e aproveitar o tempo. Que ironia, estava perdendo tempo.

Com intuição, tempo e silêncio venho redescobrindo-me e dando importância ao que pensei antes e ninguém ouviu e que hoje ecoa.

Descobri que nos dias que treino, devo usar o corpo o resto do dia. …


Começo com Poema de Viviane Mosé.

Desato
“É preciso fritar o arroz bastante antes de jogar água fervendo.
E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.
O alho deve fritar no óleo junto com o arroz.

Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas.
Faxina por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo
Que não sobra um canto que não tenha sido tocado
Por minhas mãos.
Depois vou sujando. Com muito gosto.
Deixo peças na sala e louças sujas na pia.
Não na mesma hora, mas um pouco
Bastante depois volto limpando.
Assim…

Vania Abreu Oficial

canta e escreve. Vive recolhendo detalhes para pensar — cantos, palavras sentem e dançam. www.linktr.ee/vaniaabreuoficial

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